2008/08/31

      Pero el niño se hizo mozo
      y el mozo tuvo un amor
      y a su amada le decía:
      ¿tú eres de verdad o no?
      Cuando el mozo se hizo viejo
      pensaba: todo es soñar,
      el caballito soñado
      y el caballo de verdad. (Antonio Machado, Parábolas)

          2008/07/16

          Levai-me, Senhor, e prestes,
          Que prossegue, desaprumada,
          A vida.

              2008/07/14

              Takiś swawolny czy takiś szalony? Bo słyszę, że kochasz się w lutnistce i niszcząc się składasz jej całodzienny zarobek za połów. Opowiedział mi bowiem o tym najlepszy z sąsiadów, Sozjasz, ten sam, który gotuje wspaniały i słodki sos z młodych rybek chwytanych przez siebie w sieć. A należy on do tych, co szanują prawdę, jak należy, i nie posunąłby się do kłamstwa. Skąd więc, powiedz mi, znasz się na rodzaju muzyki diatonicznym, chromatycznym i enharmonicznym? Zarówno bowiem jesteś wzięty młodzieńczą urodą dziewczyny, jak i jej grą. Tak mi w opowiadaniu oznajmił Sozjasz. Przestań wyrzucać na to swoje pieniądze, aby cię zamiast morza ziemia ogołociwszy z majątku nie uczyniła rozbitkiem, a dom lutnistki nie stał się Zatoką Kalydońska albo Morzem Tyrreńskim, śpiewaczka zaś Scyllą; a ty nie masz do wezwania Kratais, matki Scylli, jeśli po raz wtóry rzuci się Scylla na ciebie. (Alkifron, Listy heter)

                  He told to M. Hutchinson a very true story of a gentleman who not long before had come for some time to lodge in Richmond, and found all the people he came in company with, bewailing the death of a gentle woman that had lived there. Hearing her so much deplored he made inquiry after her, and grew so in love with the description, that no other discourse could at first please him, nor could he at last endure any other; he grew desperately melancholy, and would go to a mount where the print of her foot was cut, and lie there pining and kissing of it all the day long, till at lenght death in some months space concluded his languishment. This story was very true. (Stendhal, On Love)

                      Levai-me, Senhor, e prestes,
                      Que estala, luzente,
                      A tempestade. E o olho.

                          Vocabulário XVI – Pós de perlimpimpim: pó imaginário de efeitos milagrosos.

                              2008/07/12

                              Levai-me, Senhor, e prestes,
                              Que chegou, escarpada,
                              A manhã.

                                  2008/07/10

                                  Levai-me, Senhor, e prestes,
                                  Que de súbito se verga, inteira,
                                  A noite.

                                      2008/07/02

                                      Verrà la morte e avrà i tuoi occhi,
                                      questa morte che ci accompagna
                                      dal mattino alla sera, insonne,
                                      sorda, come un vecchio rimorso
                                      o un vizio assurdo. (Cesare Pavese, La terra e la morte)

                                          Orlando Mortificado I

                                          Rolando ia, pela encosta abaixo, mortificado, sem fazer caso dos fortes agravos do íngreme monte na paladina carne, Orlando, que pensativo seguia, cismando mais na falta de juízo que sobre ele descia do que na míngua de abrandamento que havia naquele desmedido descer. Era aquele monte grandíssimo, de modo que do cume ao sopé mais parecia alta montanha, sendo assaz maior em tamanho no descê-lo aos tombos do que no para ele olhar, daqui, de longe. Que causas fossem as de tal desenrolo – da prosa e do herói nela, monte abaixo –, tão contrário às prodigiosas façanhas que timbram o escudo do mui valoroso cavaleiro, não as vislumbrava então, tão cheio de ais ia, caindo, e com o siso por afinidade descaindo. Ilustres e ousadas são as inumeráveis proezas de Orlando, cujo nome estremece as hostes sarracenas e os que, de espírito e costumes perversos, não se governam pelos preceitos das bem-fazejas polidez e honradez. Surpreendente é, pois, encontrá-lo em vicissitudes tais, mais próprias de bandoleiro do que de primaz cavaleiro. Entrevê-se conjuntura amorosa, que é a que mais aflições atrai, não fosse Orlando, antes de mais, criatura mole de coração, maleita comum nos de boa visão, por a natureza favorecer num lado para logo noutro desfavorecer. Do paradeiro de Angélica, graça do magnífico Orlando, pouco ou nada se sabe por estas alturas da narrativa.

                                              2008/04/25

                                              Then the Spirit came into me and raised me to my feet. He spoke to me and said: Go, shut yourself inside your house. (Ezekiel, 3:24)

                                                  2008/01/02

                                                  Vocabulário XV – Martirológio: lista dos mártires, com a descrição dos seus tormentos e as datas das suas mortes.

                                                      Meteorologia II – Hoje, o gelo estalando a cidade, a tarde.

                                                          2007/09/17

                                                          Excepção II

                                                          O teu corpo pesa-me. Isto é: é pesado por mim e para mim. O único corpo que não me pesa nada é o meu. O único corpo que não te pesa nada é o teu. Os corpos, em relação a si, e somente em relação em si, não pesam absolutamente nada. O teu corpo, portanto, não te pesa nada, ainda que me pese a mim (é pesado por mim e para mim).

                                                              2007/06/13


                                                              Antoine Wiertz – Duas Jovens ou a Bela Rosine

                                                                  Souvent je m'éveille à moi-même en m'échappant de mon corps; étranger à tout autre chose, dans l'intimité de moi-même, je vois une beauté aussi merveilleuse que possible. (Plotin, Ennéades)

                                                                      2007/06/11

                                                                      Excepção I

                                                                      O meu corpo não pesa nada. A sua relevância estará mais na absoluta ausência de qualquer peso. Os outros corpos, esses sim, pesam. Uns, mais; outros, menos. Todos, porém, pesam. No Mundo, a única coisa que não pesa é o meu corpo. O meu corpo é excepcional. Não se trata da leveza do meu corpo, mas da ausência de peso. Ele não me pesa nada. Ninguém levanta o seu corpo como se levanta uma outra coisa qualquer. Contudo, os pesos são levantados na ausência de peso que há neste corpo: às mãos do meu corpo (que não pesa), são muitos os pesos que podem ser erguidos com menor ou maior esforço. Outros há no Mundo que são demasiado pesados, mas se fosse aplicada uma força suficiente, qualquer um poderia ser levantado. O único corpo que eu não posso levantar é o meu corpo, por não me pesar nada. Os corpos, em relação a si próprios, são excepcionais. Não pesam nada, absolutamente nada.

                                                                          Labiologia XII – Isto, tudo. Sem mais, "pois o pudor é próprio dos mortais".


                                                                              Escola de Avinhão – Pietà

                                                                                  Meteorologia I – Ontem, quatro tempestades num espaço de céu insuficiente.

                                                                                      2007/06/06

                                                                                      Pastorela II

                                                                                      Não tinha ainda o queijo chegado ao bucho, nem o meu grande escrúpulo amainado, e já de novo a mui rara voz se punha em preparos. Premunindo-lhe o cantar, disse-lhe nestes modos:

                                                                                      Ó trovador misterioso, que me tendes estupefacto, dizei-me quem sois, pela graça do Senhor!

                                                                                      Não obtendo resposta, e já com os nervos à flor da pele, e a lança entre os dedos, insisti:

                                                                                      Ó do galho, dizei-me, por Deus, que quem vo-lo pede é cavaleiro valoroso que muito vos favorecerá com o braço destro e com esta lança que aqui vedes!

                                                                                      E eis que o estranho ser me contestou, cantando:

                                                                                      Falai-me em verso, desavergonhado,
                                                                                      Ou pensais que sou de tão vil fraseado?

                                                                                      Olhando em redor, e vendo que tão azedo trato a mim se direccionava, ripostei trovando, que cavaleiro que valha sabe fazer uso do verbo:

                                                                                      Perdoai este cavaleiro desavisado,
                                                                                      Que de surpresa foi apanhado,
                                                                                      Apressai-vos e dizei-me quem sois,
                                                                                      Que igual nunca vi debaixo dos sóis!

                                                                                      E em estrofes se deu tão curioso diálogo, ora de uma banda, ora da outra:

                                                                                      Muito pedis, destreinado lutador,
                                                                                      Pois a uma alta senhora vos dirigis
                                                                                      Com questões de pouco valor.
                                                                                      Pregai antes ao vosso Salvador
                                                                                      E deixai-me com mágoas que não atingis.

                                                                                      Senhora, em dores tenho bom treinamento,
                                                                                      Pois são dores o que ando a curar
                                                                                      Neste ofício de catar padecimento!
                                                                                      Não mais vos demoreis e ponde-vos a cantar!

                                                                                      Mágoas terás visto, mole senhoria,
                                                                                      Mas novas são as que agora vês
                                                                                      E tantas e tão grandes que à vez
                                                                                      Nem em mil dias tas contaria!

                                                                                      E entre estes e outros versos que tais, caiu a noite e, com ela, foi-se a aventesma, que dama e senhora disse ser.

                                                                                          2007/06/05

                                                                                          La mort le fait fremir, pallir
                                                                                          Le nez courber, les veines tendre,
                                                                                          Le col enfler, la chair mollir,
                                                                                          Joinctes et nerfs croistre et estendre. (François Villon, Le spectre de la mort)

                                                                                              Pastorela I

                                                                                              Estando eu posto nos meus afazeres, com os meus pensares noutras coisas postos, que uma e a outra são o mesmo na vida de um cavaleiro andante, fui assomado por uma toada tristíssima que me fez alevantar os costados dos meus mui avantajados acometimentos. Coisa do Demo não seria, pois cantava umas belas romanças que nunca tais tinham sido ouvidas; coisa do Senhor seria novidade não descrita nas Escrituras, que não se avistava nem pomba, nem luz que causasse estranheza, nem sequer um vozeirão, coisas que dizem ser à guisa do Altíssimo. Pondo os olhos num galho mui alto de uma coutada ali abeirada, olhos eram o que em mim estava pregado. Não dando conta das feições de tão misterioso ser, ouvi-o cantar nestes termos:

                                                                                              Ó dor, ó sofrimento, que me não deixais!
                                                                                              Esse que aí tendes morto é o meu amado!
                                                                                              Se de mim o levais, levai-me ao menos a seu lado,
                                                                                              Que antes quero morrer, que mais não o ver!
                                                                                              Ó dor, ó sofrimento, que da vida me arrastais!

                                                                                              Cantados estes versos, o que numa sombra veio, numa sombra foi, e por mais de uma hora não voltou a cantar. Grande era o padecimento daquele rogo, tão medonho que logo me pus em grandes dós, cismando na autoria de tão sofridos versos. De cavaleiro não seria, pois não há notícia de homem valoroso com tão fina voz, que mais depressa seria de rouxinol. De donzela tão-pouco, que um coração tão moço não pode conhecer tamanhas desventuras, nem se sabe que se sentem em galhos. Em tão grandes e profundas cismas me achei, que por cansado me dei. Fazendo de um tronco uma espalda, e de um queijo repasto, fiquei a meditar em tão denso mistério.

                                                                                                  2007/06/04

                                                                                                  Adenda XIII (à última entrada) – Das ilusões de um blind date helénico.

                                                                                                      Deus não possui um corpo provido de uma cabeça humana; não tem um tronco de onde partem, como dois ramos, dois braços; não tem pés, nem joelhos ágeis, nem um membro viril coberto de pêlos. (Empédocles)

                                                                                                          2007/06/03

                                                                                                          Concílio dos Cem Capítulos, Stoglav, Moscovo, 1551
                                                                                                          Capítulo 5. Questão 8.

                                                                                                          Dos mosteiros e dos monges: nos mosteiros, os monges e os padres professam votos para a salvação das suas almas. Mas alguns há que o fazem para conforto corporal, para que possam constantemente dar-se ao luxo da embriaguez e para que possam divertir-se nas vilas vizinhas aos mosteiros. Dos arquimandritas e dos abades: alguns arquimandritas e abades conseguem a sua posição por meio de suborno, desconhecendo os serviços divinos, a mesa do refeitório e a irmandade, repousando ainda nas suas celas com visitas.

                                                                                                              2007/06/01

                                                                                                              Des choses qui ont de brillantes couleurs, on dit qu'elles sont belles. (Tomás de Aquino, Suma Teológica)


                                                                                                              Antoine Prum – Mondo Veneziano: High Moon in the Sinking City

                                                                                                                  Na ordem das plantas menos aromáticas, matéria
                                                                                                                  de sangue, os jacintos. Na ordem da
                                                                                                                  morte, Jacinto, vergôntea de sangue,
                                                                                                                  sangue tenro,
                                                                                                                  que se pode colher.

                                                                                                                  Na ordem dos organismos: do coração,
                                                                                                                  o talo, que se pode talhar (duas
                                                                                                                  vezes o disco de Apolo, duas virações
                                                                                                                  de Zéfiro).

                                                                                                                  Na ordem da ressurreição, enterrar
                                                                                                                  a planta do pé
                                                                                                                  na terra, senti-la friíssima, a planta
                                                                                                                  e a terra, o tornozelo afundado; fincar
                                                                                                                  o corpo, arraigá-lo.
                                                                                                                  Golpeá-lo, amiúde, para
                                                                                                                  que sangre, para que não seque, na
                                                                                                                  ordem do crescimento.

                                                                                                                      2007/05/31

                                                                                                                      Estendi-me num parque varsoviano e admirei o cruzamento constante dos pássaros, voando entre as copas das árvores, tendo imaginado que faziam uma malha viva nos céus. E fechei os olhos para melhor sentir, quietas e suspensas, todas as aves que cruzaram aquelas mesmas copas. A aerologia possível, num dia melancólico.

                                                                                                                          Não deixes passar sem espanto, cavaleiro desavisado, o que tão altas e finas donzelas escrevem, fazendo menção do teu pobre livro de virotes, virações e gongorismos avulsos. Pois que seria do teu fraseado, infeliz alma danada, sem que tão belos olhos lhe pusessem a vista em cima? Valoriza o desvelo com que tais senhorias te prendam, prostrando-te agradecida e delicadamente.

                                                                                                                              Interior é um comparativo para tudo o que é interno. Íntimo é o superlativo.
                                                                                                                              Voz a tal ponto íntima que não é sequer transportável pelo ar.
                                                                                                                              Que não é sequer da ordem da respiração do corpo. (Pascal Quignard, As Sombras Errantes)

                                                                                                                                  2007/05/30

                                                                                                                                  I
                                                                                                                                  Nunc et in hora mortis nostrae

                                                                                                                                  Sentamo-nos no passadiço defronte de uma igreja de Roma, a manhã avançando morosamente, a rigorosa luz solar dobrando os ângulos ali dispostos, e lembrei-me de um tempo anterior, no rebuliço do bairro que aglutina o Tibre. Entretanto, acometias-me com um arrazoado que eu queria a todo o custo evitar porque me doía, porque nos doía. Uma manhã de pesares. Creio que sempre foi esse o peculiar tom das nossas relações: fazer com que o nosso possível futuro unido se desmoronasse imediatamente, a cada instante; que se desmorone. Eis o que nos apaixona: a dolorosa adoração do arruinamento. Carteamo-nos para melhor nos devastarmos. Afinal, não será esse o registo de toda a Literatura: fazer com que o porvir melhor se derribe? Entrámos então na tal igreja, onde uma pequena e árida voz ensaiava uma ave-maria cantada,

                                                                                                                                  Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus, et benedictus fructus ventris tui, Iesus. Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

                                                                                                                                  Agora e na hora da nossa morte. Escrevo a oração em latim por cuidar que um idioma vivo não dá conta do recado da mercadoria espiritual: para os assuntos arquidivinos, uma língua morta, assim fria e hirta, elegante e luzidia. É forçoso que se deixe desviver a língua, desunindo-a da orbe dos viventes e entorpecendo-a na benção da prece, para que se alcance o êxtase. Que êxtase? O da carne, pois claro, que as almas são pélagos de sangue e o céu, esse, uma estese infinda. É por isso que o catolicismo é a mais divina das religiões, a mais santificada: porque é a doutrina que se pratica através dos poros, o credo do corpo. A este apólogo voltarei. Há uma igreja aqui à beira de casa, da casa onde agora estou, que tem um telhado deveras inclinado. No Inverno, por altura do algor, caem as lâminas de gelo e, sob elas, caem lacerados os fiéis. Corações ao alto, para que melhor feneçam os corpos. São autênticos tratados do catolicismo, estes corpos rasgados à porta do templo.

                                                                                                                                  Do Tibre para o Vístula, que este é um columbograma que dará muitas e algo tortuosas voltas. Varsóvia tem sido fustigada por uma espécie de vórtice, uma ventania de levante, chuvas, duas árvores caídas na área dos meus olhos. Hoje há também neve e nos telhados formam-se as tais lâminas de gelo que inevitavelmente recortarão o ar e o que mais encontrarem debaixo do seu límpido peso.

                                                                                                                                  Não sei que entoação dar a estas epístolas. Poderia dizer-te muitas coisas, mas receio enfadar-te. Aliás, se há coisa que temo em ti é a precariedade do teu humor. Poderia contar-te que passei o fim-de-semana a pintar um quarto; que ontem tomei um café com uns alunos e que lhes traduzi uma frase odiosa de João Paulo II para português; que tenho uma escrivaninha branca e que mal lhe ponho os cotovelos em cima, para que não se suje, e de como me sinto pequeno ao temê-lo; que hoje vou assistir a um recital de piano de Lang Lang, com sonatas e prelúdios, sonetos petrarquistas e rapsódias húngaras, na última fila (emenda: penúltima fila) da sala de concertos da Filarmónica Nacional; que estive a ler algumas páginas do diário da falecida mãe da minha amada, de 1972; que tenho saudades de passear junto ao Vístula, a claridade pelos olhos adentro; que gostaria de molhar os dedos nas águas atlânticas. Mas sei que te aborreço com tudo isto. A respeito do diário, eis a entrada correspondente ao dia do teu aniversário:

                                                                                                                                  Wolne – konferencja. Visconti, Smierć w Wenecji. Imieniny Romana.

                                                                                                                                  A morte em Veneza. A morte em Davos, num sanatório alpino. Há cidades que me parecem ser naturalmente mortais, isto é, inclinadas para a morte. Berlim é uma delas. Londres será outra. Não sei bem por que razão, mas parecem sítios aonde se vai para morrer, ou com uma certa predisposição para tal. Haverá outras, talvez. Continuo atentamente à espera de que me falhe o coração, que cessem os batimentos (e com eles a vida), mas se vou a uma destas cidades, vejo mortandade em todo o lado e já o levo interrompido, como que a antecipar a fatalidade. Nunca me divirto muito nestes lugares. Roma tem qualquer coisa de semelhante, mas a cidade eterna é de tal boniteza que se pode passar por lá sem vida, com a respiração sustida, assim como tu vives há anos, talvez desde sempre.


                                                                                                                                      (Peter Greenaway – Windows, 1974)

                                                                                                                                          (...) Farewell, happy fields,
                                                                                                                                          Where joy forever dwells! Hail, horrors! hail,
                                                                                                                                          Infernal World! and thou, profoundest Hell,
                                                                                                                                          Receive thy new possessor – one who brings
                                                                                                                                          A mind not to be changed by place or time. (Milton, Paradise Lost)

                                                                                                                                              Passamento VII

                                                                                                                                              On y lisait pour tout épitaphe: Guillaume ou Paul, né en telle année, mort en telle autre. Sur quelques-uns il n’y avait pas même de nom. Le laboureur chrétien repose oublié dans la mort, comme ces végétaux utiles au milieu desquels il a vécu: la nature ne grave pas le nom des chênes sur leurs troncs abattus dans les forêts. (Chateaubriand, Génie du Christianisme)

                                                                                                                                                  2007/02/28

                                                                                                                                                  Memorando XXIV – E sobre o duro ferro penetrante / Arroja o tenro, cristalino peito... (Correia Garção)

                                                                                                                                                      2007/01/28

                                                                                                                                                      Com a convulsa mão súbito arranca
                                                                                                                                                      A lâmina fulgente da bainha,
                                                                                                                                                      E sobre o duro ferro penetrante
                                                                                                                                                      Arroja o tenro, cristalino peito;
                                                                                                                                                      E em borbotões de espuma murmurando,
                                                                                                                                                      O quente sangue da ferida salta:
                                                                                                                                                      De roxas espadanas rociadas,
                                                                                                                                                      Tremem da sala as dóricas colunas.
                                                                                                                                                      Três vezes tenta erguer-se,
                                                                                                                                                      Três vezes desmaiada, sobre o leito
                                                                                                                                                      O corpo revolvendo, ao céu levanta
                                                                                                                                                      Os macerados olhos. (Correia Garção, Cantata de Dido)

                                                                                                                                                          2006/10/04

                                                                                                                                                          III

                                                                                                                                                          Nunca tinha pensado nisso, mas pensei agora, pensou, e chegou mesmo a dizer: "Tê-lo-ei lido algures, talvez." Disse? Disse-o agora. Da magnânime frase da velhota que, corpo arrastado de degrau em degrau, pensava já em deixar a porta entreaberta (não fosse o Diabo querer entrar, ou o corpo sair antes do apodrecimento e depois da morte), da frase, dizia-se, nunca teve certezas, mas ficou-lhe aquele sentimento dos últimos dias, se tal coisa pode levar o nome de sentimento. Quem teria proferido tal frase, se alguém a escreveu, do último Outono de uma vida? Hans Castorp? Oedipa Maas? Stephen Dedalus? Como seria isso de ter a límpida consciência de que estas seriam as últimas folhas caídas, estas que agora mesmo piso? Pisava, ao caminhar para a paragem de autocarros, pensando quantas mais estações do ano veria, se veria, e passou-lhe pela cabeça que as tempestades estariam prestes a terminar. Boas notícias, portanto, porque nada havia de mais violento dentro de casa que as intermináveis chuvas de relâmpagos que incendiavam os céus. (Punha-se de cócoras no corredor, que era a única divisão interior, por assim dizer, o que lhe dava uma certa sensação de protecção. Coisa pouca, claro está, porque sempre se ia vendo num qualquer descampado, braços ao alto, o coração nas mãos, a cabeça à espera da explosão, ouvindo o mínimo som que precede a descarga eléctrica sobre o corpo.)
                                                                                                                                                          A noite tardava. De regresso a casa, o casaco de bombazina nas costas de uma cadeira, o jantar engolido, a cama feita. E lia, talvez em voz alta: «Ulisses estava a desembarcar em Tróia, no cais do seu palácio, caía a noite, e, ao ouvir ladrar o seu cão, levantou os olhos e viu diante de si o seu velho criado Eumeu. A voz suspendeu a narrativa, e as crianças, de grandes olhos extasiados, viram os três vultos, o cão, Ulisses e o alquebrado Eumeu, reunirem-se e exprimirem o mútuo afecto, mais por gestos e sons do que por palavras, tal como se exprimem as crianças.» A noite, essa, tardava.

                                                                                                                                                              2006/10/03

                                                                                                                                                              II

                                                                                                                                                              Sempre estranhara a porta entreaberta do apartamento, no terceiro andar do número sessenta e três. Diziam-lhe os amigos, e pensava-o também, que era por medo do passamento, que se lhe ficassem as carnes e a fruta (e o que mais...) a apodrecer, até que os vizinhos dessem pelo cheiro nauseabundo. Chamados os bombeiros, arrombada a porta, encontrar-se-ia o corpo num qualquer canto da casa. Fosse como fosse, nunca tinha visto a vizinha, ainda que lhe tivesse visto o bengaleiro, os sapatos desacertados à entrada, o tapete envelhecido, um casaco ou outro, não fosse a neve chegar antes do tempo. Viveu ali um mês, sem sinais da vizinha, que sabia ser velha pela boca das outras senhoras do bloco, tão dadas à bisbilhotice como à elegante guarda de segredos, que as duas coisas sempre concorrem para o sucesso de uma comunidade.
                                                                                                                                                              Foi numa manhã fria, o primeiro sinal outonal do ano, que se encontraram na escadaria, a velha subindo como quem carrega o bloco de apartamentos às costas. Trocaram umas palavras incompreensíveis. Em polaco, portanto. "Chegou o meu último Outono", terá dito, talvez; ou não, que as palavras da velhice nem sempre são tão magnânimas.

                                                                                                                                                                  Adenda XII (às duas últimas entradas) – De como a pintura de Correggio quer dizer a frase de Thomas Mann e vice-versa.


                                                                                                                                                                      Correggio – Danae

                                                                                                                                                                          Is it not well done that our language has but one word for all kinds of love, from the holiest to the most lustfully fleshly? All ambiguity is therein resolved: love cannot but be physical, at its furthest stretch of holiness; it cannot be impious, in its utterest fleshliness. (Thomas Mann, The Magic Mountain)

                                                                                                                                                                              2006/10/02

                                                                                                                                                                              I

                                                                                                                                                                              Do alfarrábio não sobrara senão uma pequena parte, um pedaço de papel guardado sem muitos cuidados, mas rasgado com uma precisão bastante para que se lhe percebesse a estrutura de um parágrafo, extensivamente sublinhado a lápis, escrito num polaco antiquado que não facilitava a compreensão. Seria o durame do calhamaço? Um parágrafo, de qualquer das maneiras. Era o sublinhado que chamava a atenção, pois parecia mais um trecho enxertado num sublinhado que o contrário, o que seria, isso sim, de esperar. Ter-se-ia dado o caso de alguém escrever sobre umas marcas de lápis, como se escrevesse algo de tal importância que, ao fazê-lo, teria de ser já com a marca da leitura e da ênfase? Lia-se o seguinte, sem que se lhe descortinasse qualquer sentido:

                                                                                                                                                                              "Estarei debaixo do rio, numa caixa de metal. O corpo não estará bem acomodado, pois as medidas foram mal calculadas, mas a falta de conforto compensar-se-á com a dispensa de conforto que os mortos fazem sua, para descanso dos viventes. Passarão barcos e nadadores sobre mim. Outros, afogar-se-ão. Entretanto, passará todo o rio, corpo contínuo, e eu saberei permanecer na maior quietude, apesar da enorme pressão que a caixa de metal terá de suportar. Eu, pela minha parte, deixarei de sentir a pressão de estar vivo, que não é menor que a do rio sobre o meu caixão desajustado das medidas do conteúdo. Tudo terá o respeito que se deve aos mortos e enterrados, julgo. Se assim não for, e caso o meu corpo seja encontrado numa das margens, que me depositem num caixão com as medidas apropriadas, que – sendo verdade o que acima disse – não me deixa descansar a ideia de que estarei em desconfortos dentro de uma caixa, como se já não bastasse o gelo de Inverno sobre o rio, que seguramente deixará tudo num silêncio difícil de aguentar. Assim o silêncio nas minhas veias, onde se secará o sangue. Sim, sei bem que nada poderei ouvir desde a minha morte, mas o que me incomoda é o que imagino dela ainda em vida, que essa é toda a dor da morte. Estarei debaixo do rio, numa caixa de metal."

                                                                                                                                                                                  2006/09/26

                                                                                                                                                                                  Truncamento VI – Plebian hand had almost grown.

                                                                                                                                                                                      Passamento VI

                                                                                                                                                                                      In the afternoon the metallic coffin arrived. The removal of Joachim to this stately receptacle, decorated with lions' heads and rings, was the sole affair of the man who came along with it, a black-clad functionary of the undertaking establishment which had the arrangements in hand. He wore a sort of short dress-coat, and the wedding-ring on his plebian hand had almost grown into the flesh. One inclined to feel that he exhaled an odour of death from his garments – pure prejudice, of course, and groundless. (Thomas Mann, The Magic Mountain)


                                                                                                                                                                                          Peter Paul Rubens – As Três Graças


                                                                                                                                                                                              Peter Paul Rubens – As Três Cruzes

                                                                                                                                                                                                  2006/09/24

                                                                                                                                                                                                  Passamento V

                                                                                                                                                                                                  Accustom yourself to believing that death is nothing to us, for good and evil imply the capacity for sensation, and death is the privation of all sentience; therefore a correct understanding that death is nothing to us makes the mortality of life enjoyable, not by adding to life a limitless time, but by taking away the yearning after immortality. For life has no terrors for him who has thoroughly understood that there are no terrors for him in ceasing to live. Foolish, therefore, is the man who says that he fears death, not because it will pain when it comes, but because it pains in the prospect. Whatever causes no annoyance when it is present, causes only a groundless pain in the expectation. Death, therefore, the most awful of evils, is nothing to us, seeing that, when we are, death is not come, and, when death is come, we are not. It is nothing, then, either to the living or to the dead, for with the living it is not and the dead exist no longer. (Epicurus, Letter to Menoeceus; dziękuję)

                                                                                                                                                                                                      2006/09/23

                                                                                                                                                                                                      "Aqui é a porta dos céus", podia (e pode) ler-se numa inscrição colocada à entrada de uma igreja católica, em Varsóvia. A manhã ia a meio e o autocarro tardava. E assim, à porta do templo, como quem não quer a coisa, a explicação do catolicismo: "Aqui é a porta dos céus." Nunca mais admirarei uma "Missa pro defunctis" ou uma Anunciação sem repetir, assim como quem prega: "Aqui é a porta dos céus", que cada obra deste género é um hipetro.


                                                                                                                                                                                                          Bartolomeo di Giovanni – Anunciação

                                                                                                                                                                                                              2006/09/22

                                                                                                                                                                                                              Passamento IV

                                                                                                                                                                                                              It is a fact that a man's dying is more the survivors' affair than his own. Whether he realizes it or not, he illustrates the pertinence of the adage: So long as we are, death is not; and when death is present, we are not. In other words, between death and us there is no rapport; it is something with which we have nothing to do. (Thomas Mann, The Magic Mountain)

                                                                                                                                                                                                                  Labiologia XI – Ler aqui uma breve nota biográfica sobre o "dócil e bom, económico e esclarecido" D. Duarte, patrono deste sítio.

                                                                                                                                                                                                                      Condescendo: a explosão de luz que percebo do lado de lá dos estores incendiar-me-á o corpo como quem esmaga a escuridão.

                                                                                                                                                                                                                          2006/06/14

                                                                                                                                                                                                                          Adenda XI (à última entrada) – Da influência do pensamento estratégico chinês nas doutrinas fundamentais do cristianismo.

                                                                                                                                                                                                                              The exercise of kindness in battle leads to victory, the exercise of kindness in defense leads to security. (Sun Tzu, The Art of War)

                                                                                                                                                                                                                                  A respeito do discurso de um sábio sobre as virtudes do sono, Zaratustra afirma o seguinte:

                                                                                                                                                                                                                                  Para todos estes sábios tão elogiados, que pregavam do alto das suas cátedras, a sabedoria era o sono sem sonhos: não viam melhor sentido para a vida.

                                                                                                                                                                                                                                  E assim tinha falado o sábio que Zaratustra ouvira:

                                                                                                                                                                                                                                  Honra e respeito ao sono! É a primeira de todas as coisas! Evitai, pois, todos os que dormem mal e estão despertos durante a noite!
                                                                                                                                                                                                                                  (...)
                                                                                                                                                                                                                                  Dormir não é uma arte fácil: é necessário preparar-se para isso, velando todo o dia.
                                                                                                                                                                                                                                  (...)
                                                                                                                                                                                                                                  O sono toca nos meus olhos e imediatamente eles ficam pesados. O sono toca-me a boca e ei-la que fica aberta.
                                                                                                                                                                                                                                  Na verdade, chega-se a mim, com pezinhos de lã, o mais querido dos ladrões e rouba-me os meus pensamentos: permaneço de pé, parado como esta mesa. (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

                                                                                                                                                                                                                                  Nietzsche teria certamente pensado duas vezes (se não quarenta) nas virtudes do sono, se este pensamento lhe tivesse passado pela cabeça:

                                                                                                                                                                                                                                  The waking man is more moral than the sleeping. (Thomas Mann, The Magic Mountain)

                                                                                                                                                                                                                                      2006/06/13


                                                                                                                                                                                                                                      A destruição de Varsóvia (1945)

                                                                                                                                                                                                                                      You will reply today, touching warm letters,
                                                                                                                                                                                                                                      leafing through them in the dark, confusing vowels with consonants,
                                                                                                                                                                                                                                      like a typewriter in an old Warsaw office.
                                                                                                                                                                                                                                      The heavy honeycombs
                                                                                                                                                                                                                                      glisten with gold from which language is spun.
                                                                                                                                                                                                                                      Don’t stop, just write,
                                                                                                                                                                                                                                      type over the empty white space, stamp through the black silent trail.
                                                                                                                                                                                                                                      No one will return from ramblings through the long night,
                                                                                                                                                                                                                                      and forgotten snails will die on wet grass. (Serhiy Zhadan, History of Culture at the Turn of This Century)

                                                                                                                                                                                                                                          Adenda X (à última entrada) – Onde se lê "amanhecendo", pode ler-se "anoitecendo" ou mesmo "adormecendo", mas nunca "acordando". Esta indicação, como é evidente, não depende da hora do dia.

                                                                                                                                                                                                                                              Amanhecendo com as gostosas palavras de Lévinas: "passividade mais passiva que toda a passividade".

                                                                                                                                                                                                                                                  2006/06/12

                                                                                                                                                                                                                                                  E os dedos de Tomé nas chagas de Jesus, ave-marias que não se chegam a rezar (porque rezá-las é caso de inocência, quando não mau gosto), quadros poeirentos esquecidos nas sacristias, concupiscência (porque não há quem a lembre tantas vezes), estigmas, estigmas, estigmas, os cabelos de Maria Madalena, retábulos, cálices, o "Evangelho segundo Mateus" de Pasolini, sinos, epitáfios e por aí adiante. A propósito da boniteza do catolicismo (e ainda aqui).

                                                                                                                                                                                                                                                      Truncamento V – Meus olhos por vós tão tristes partem senhora.

                                                                                                                                                                                                                                                          Truncamento IV – Tristes vistes outros nenhuns.

                                                                                                                                                                                                                                                              Senhora partem tam tristes
                                                                                                                                                                                                                                                              meus olhos por vós, meu bem,
                                                                                                                                                                                                                                                              que nunca tam tristes vistes
                                                                                                                                                                                                                                                              outros nenhuns por ninguém.

                                                                                                                                                                                                                                                              Tam tristes, tam saudosos,
                                                                                                                                                                                                                                                              tam doentes da partida,
                                                                                                                                                                                                                                                              tam cansados, tam chorosos
                                                                                                                                                                                                                                                              da morte mais desejosos
                                                                                                                                                                                                                                                              cem mil vezes que da vida.
                                                                                                                                                                                                                                                              Partem tam tristes os tristes
                                                                                                                                                                                                                                                              tam fora d’esperar bem,
                                                                                                                                                                                                                                                              que nunca tam tristes vistes
                                                                                                                                                                                                                                                              outros nenhuns por ninguém. (João Roiz de Castel-Branco, Cancioneiro Geral, III)

                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/06/11

                                                                                                                                                                                                                                                                  Mas eu, jovem infeliz, infeliz desde o princípio da adolescência, roguei-vos por castidade e disse: Dai-me castidade e continência, mas não agora. Temia que atendêsseis ao meu pedido de imediato, sanando-me da concupiscência quando eu a queria mais saciada do que curada. (Agostinho, Confissões)

                                                                                                                                                                                                                                                                      Passamento III

                                                                                                                                                                                                                                                                      Read your own obituary notice they say you live longer. Gives you second wind. New lease of life.

                                                                                                                                                                                                                                                                      (...)

                                                                                                                                                                                                                                                                      Your funeral’s tomorrow
                                                                                                                                                                                                                                                                      While you’re coming through the rye.
                                                                                                                                                                                                                                                                      Diddlediddle dumdum
                                                                                                                                                                                                                                                                      Diddlediddle... (James Joyce, Ulysses)

                                                                                                                                                                                                                                                                          2006/06/10

                                                                                                                                                                                                                                                                          Abro comentários para que os possa encerrar dentro de pouco tempo, assim que passem quatro ou cinco dias sem que se escreva uma única palavra. Como o patinho feio da escola que diz à moça mais bonita das redondezas (o que vale pelo mundo) que a ama perdidamente, para poder acabar com o caso e com a paixão logo ali, que a resposta já a conhecia desde o dia em que tinha posto os olhos nela.

                                                                                                                                                                                                                                                                              Insiste-se muito num ensino com qualidade da literatura. E ainda bem que é assim. No entanto, como escrevi, parece-me que se esquece quase toda a literatura do mundo. Mas também se esquece outra coisa: por que razão se insiste tanto na língua, deixando de lado tudo o resto? Sentamo-nos na sala de aulas para ler versos, e ainda bem que assim é, mas será que alguém se senta na escola para ouvir música? Ou não se aprenderá a apreciar música? Que vale mais: uma estrofe de Camões ou o cravo bem temperado de Bach? Na ordem do ensino das belas coisas, a literatura não passa de um coto, que continua colado ao corpo porque se insiste em resumir o pensamento à língua. Enquanto deixarmos de lado tantas outras coisas (o bailado, o cinema, o desenho, etc.), o ensino das tais belas coisas não passará de um corpo amputado.

                                                                                                                                                                                                                                                                                  Condescendo: que o trânsito dos corpos é do tamanho do trânsito sanguíneo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/06/09

                                                                                                                                                                                                                                                                                      Pode dizer-se que um aluno conhece literatura, quando aprende exclusivamente a portuguesa? Ensina-se a nossa literatura como se não houvesse mais nenhuma. Melhor: como se os grandes clássicos estrangeiros não passassem de influências à literatura portuguesa. Homero? Aquele cuja obra influenciou Camões. Que obra? Aquela que influenciou Camões.


                                                                                                                                                                                                                                                                                          Anónimo holandês – página das Très Belles Heures du Duc de Berry.

                                                                                                                                                                                                                                                                                          É por estas e por outras que não se lê. Eu não tiraria os olhos das páginas se todos os livros fossem assim. Querem um plano de leitura? Iluminem.


                                                                                                                                                                                                                                                                                              Tilman Riemenschneider – Maria Madalena com Anjos

                                                                                                                                                                                                                                                                                              Maria Madalena, "da qual saíram sete demónios", no seu estado natural. Extravagâncias de Magdala.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E lamentações, evangelhos, o Demo, o Demo, o Demo, espécies, "agnus Dei", visitações, a Santíssima Trindade, as "Fiori musicali" de Frescobaldi, vitrais, vitrais, vitrais e por aí adiante. A propósito da boniteza do catolicismo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Vocabulário XIV – Arúspice: sacerdote romano que predizia o futuro pelo exame das vísceras das vítimas oferecidas em sacrifício aos deuses.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2006/06/08

                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Passamento II

                                                                                                                                                                                                                                                                                                          One and all of them, but expressly the flowers, and of these more expressly the hosts of tuberoses, were there to palliate the other aspect of death, the side which was neither beautiful nor exactly sad, but somehow almost improper – its lowly, physical side – to slur it over and prevent one from being conscious of it. (Thomas Mann, The Magic Mountain)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Passamento I


                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Cemitério acatólico de Roma

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Enquanto espero que me falhe o coração, começarei uma série intitulada Passamento, que incluirá flores, anjos e outras miudezas. Há quem compre o seu próprio caixão, há quem prepare a fatiota a usar durante a eternidade (isto se forem de bom tecido, o fato e o corpo), há quem escreva testamento e há quem procure redimir-se das maleitas que provocou. A mim, deu-me para isto. A talho de foice (e que bem fica esta locução aqui), as palavras de Mário Cesariny: "Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu leito..."

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/06/07

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Adenda IX (às duas últimas entradas) – Elementos para a compreensão das capacidades de transmudação dos cavaleiros, que diante de uma donzela a deixam enamoradíssima e, diante de um qualquer sujeito, provocam os mais terríveis medos, pois é a espada da justiça que se desembainha. Ou não.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Nunca fora cavaleiro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          de damas tão bem servido,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          como ao vir de sua aldeia
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          D. Quixote o esclarecido:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          donzelas tratavam dele,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          princesas do seu rocim. (Cervantes, D. Quixote)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              The well-known Australian explorer, Mr. Stuart, has given a striking account of stupefied amazement together with terror in a native who had never before seen a man on horseback. Mr. Stuart approached unseen and called to him from a little distance. "He turned round and saw me. What he imagined I was I do not know; but a finer picture of fear and astonishment I never saw. He stood incapable of moving a limb, riveted to the spot, mouth open and eyes staring. (Charles Darwin, Expression of the emotions in man and animals)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Truncamento III – Uninterruptedly beating night.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Truncamento II – Day in so wonderful a manner.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          The heart, which goes on uninterruptedly beating night and day in so wonderful a manner, is extremely sensitive to external stimultants. (Charles Darwin, Expression of the emotions in man and animals)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Pois é. O estímulo externo, as pálpebras cerradas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2006/06/06

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Labiologia X – De Mário Cesariny, e dito pelo próprio, "nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar", a ouvir aqui (Welcome to Elsinore).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Truncamento I – O livrinho aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      E a voz que eu, do céu, tinha ouvido, tornou a falar comigo, e disse: Vai, e toma o livrinho aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      E fui ao anjo, dizendo-lhe: Dá-me o livrinho. E ele disse-me: Toma-o, e come-o, e ele fará amargo o teu ventre, mas, na tua boca, será doce como mel.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      E tomei o livrinho, da mão do anjo, e comi-o; e na minha boca era doce como mel; e, havendo-o comido, o meu ventre ficou amargo. (Apocalipse, 10:8-10)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Albrecht Dürer – O Apocalipse de São João

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2006/06/05

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Dou por certo que o catolicismo é das coisas mais bonitas do Mundo. Bonito, precisamente. O catolicismo é bonito porquanto é feito de cerimónias e de nada mais. O catolicismo não é o exército de adoentados que enchem as salas de espera dos centros de saúde, nem tão-pouco a juventude que, jovemmente, canta cantigas e entoa toadas de adoração a Nossa Senhora. Isto não passa de um cristianismo de baixo nível, mesquinho, de quem nunca leu as epístolas de Paulo, quando não é um clericalismo obediente praticado por bem-te-vis. O catolicismo é a Igreja, e não está em todas as igrejas (já se Deus está, não interessa a ninguém). Claro que a Igreja tem uma vertente odiosa, que outra palavra não há, a saber: o lado político, que não permite o uso do preservativo ou que admite, por exemplo na Polónia, que se proíba o consumo do álcool ou a publicidade a pensos higiénicos nos dias de visita papal. Isto só acontece porque o clero é uma horda ("bando indisciplinado que se entrega a devastação e assaltos") de humanos. Fossem divinizados, como um qualquer concílio poderia fazer, e não haveria impropérios destes. Aliás, se o próprio Sumo Pontífice pode salvar as crianças do limbo, bem pode divinizar um amontoado de clérigos. O que faz o catolicismo é uma série de coisas antigas: missas, Impropérios (de outra ordem), o pão e o vinho, a carne e o sangue, pinturas, pinturas, pinturas, latim, latim, latim, "sursum corda", talha dourada, sacramentos, consubstanciações, Eucaristia, "hoc est enim corpus meum", gótico, barroco, cerimónias funerárias, "requiem", incensos, anunciações, conventos, cravações, unguentos, "noli me tangere", ressurreição, ascensões, martírios, crucificações e por aí adiante. Há mais catolicismo numa imagem de Fra Angelico que na ideia de Deus.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Fra Angelico – Anunciação

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Memorando XXIII – Árvores de um verde inefável. Tão imponentes e amorfas que poderiam confundir-se com nuvens. (Frederico Lourenço)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Que poeta não o dirá, vossa senhoria, que filósofo não o afirmará, que quem tem encarcerado o coração não pode senão ter a alma reclusa, fechada a sete chaves, enterrada na região mais remota do Inferno? Tendes-me num calabouço, que outra coisa a minha vida não tem sido sem vossemecê, e é à mercê de vossos humores que os meus dias se tornam em noite, e em dia as noites. Faço uso da prosa, se prosa se chama a tão lacrimosa macedónia, mas avisa-me a mágoa que vós não lereis estes meus lamentos copiosos. Se os lerdes, peço-vos, respondei-me, e dai-me sinais, para que me sirvam de consolo ou, queira Deus, de salvação.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2006/06/04

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          The last day had come. Doomsday was at hand. The stars of heaven were falling upon the earth like the figs cast by the figtree which the wind has shaken. The sun, the great luminary of the universe, had become as sackcloth of hair. The moon was bloodred. The firmament was as a scroll rolled away. (James Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Petrus Christus – O Juízo Final

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vocabulário XIII – Novíssimos: os últimos destinos do homem, segundo a doutrina católica (Morte, Juízo, Inferno e Paraíso).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/06/03

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono prima di tutto immorali...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in secondo luogo estremistiche...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in terzo luogo teppistiche...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in quarto luogo falsamente pratiche...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in quinto luogo falsamente idealistiche...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in sesto luogo ottuse...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in settimo luogo adulatrici...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in ottavo luogo razziste...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in nono luogo sessuofobiche...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le persone serie sono in decimo luogo (e questo è l'unico punto parzialmente a loro vantaggio) prive di spirito... (Pier Paolo Pasolini, Lettere luterane)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Leio "a baba de ouro dos insectos", tanjo-a
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          enquanto a tarde.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Cheiro "a baba de ouro dos insectos",
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          fio-a enquanto o vento,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          a tarde.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ("a baba de ouro dos insectos")

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Don't you like the sight of a coffin? I really do. I find it a handsome piece of furniture, even empty; when someone is lying in it, then, in my eyes, it is positively sublime. Funerals have something very edifying; I always think one ought to go to a funeral instead of to church when one feels the need of being uplifted. People have on good black clothes, and they take off their hats and look at the coffin, and behave serious and reverent, and nobody dares to make a bad joke, the way they do in ordinary life. (Thomas Mann, The Magic Mountain)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/05/08

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Labiologia (epítome): Lugar Comum.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/03/29

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Labiologia VIII – As artes da guerra e do amor, nos dias 12 e 13 de Junho de 1940, dias felizes.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Condescendo: desaparecesse o cerrado nevoeiro e, com ele, esfumar-se-iam todos os sons da cidade, que lhe pertencem numa manhã de nuvens como os pássaros ao voo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2006/03/28

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Erguei-vos, cavaleiro madraço, que vos chega demanda de vosso amo! Servi-o como quem serve o rei do maior dos reinos! Encomendai-vos ao Senhor e à vossa senhora para que vos saia resposta atinada, que não há maior louvor que um quesito de tal importância! Olhai bem, ó cavaleiro valoroso, ainda que falho em sucessos, que vos pedem tradução do catecismo!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ora, esta belíssima obra, explicação da voluptuosidade, não tem intróito de relevo (a carne vem nas páginas subsequentes), mas traduzo-o na mesma, fazendo usança da minha ciência rudimentar. O catecismo, esse, chama-se As raparigas do meu avô. A página 102 diz o seguinte: "É provavelmente algum tipo de perversão. Há alguns anos que recolho fotografias eróticas em estilo retro. Gostaria de apresentar a minha colecção (que contém algumas centenas de itens) num formato diferente, o qual será usado na página do meu pai." O resto não vale a pena, pois não passa de uma indicação técnica sobre a navegação no sítio.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Este humilde cavaleiro andante, perdido em terras eslavas, só tem uma coisa a declarar, não sem pena: que não é o avô do autor do catecismo, o que o enche de muitos nojos.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Sandro Botticelli – O Abismo do Inferno

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/03/26

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Tivesse esta pobre alma outro ofício que não o da digníssima cavalaria andante, consolo de desamparados, e já se teria apercebido do aniversário do graciosíssimo Bombyx Mori. Oh, gratidão, que te apartas quando de ti mais há necessidade! Contasse os dias nas luas, como se contam as desgraças que amiúde sucedem a quem faz uso das armas para enfrentar as caraminholas do Demo (e de cabelos não falo), e não me teria escapado tão honrada data. Possa este valoroso braço favorecê-lo, e dê como comprovada a fidelidade deste seu servo a vossa senhoria.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2006/02/14


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Pierre Mignard – Clio

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Meia noite, meia noite,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Da velha torre caía,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Em seu camarim real
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A bela Ausenda cosia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Tela que estava cosendo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              De fina prata par'cia;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Junto dela, sua mãe
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Em cama de ouro dormia...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Longo mantinho de lustro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Seu esbelto corpo envolvia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Anel que tinha no dedo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Frechas de cor despedia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Passos na escada se ouviram,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Passos de alguém que subia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ouvindo tal, a Princesa
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A abrir a porta corria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ouvindo o gemer da porta,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A mãe os olhos abria,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Abriu-os mas não viu nada,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que o candil já se morria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Quem é que anda abrindo portas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Filha, aqui ao pé de mim?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Senhora mãe, é o vento
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que abre as portas do jardim.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Segura com tal resposta,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Logo a mãe adormecia;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Vendo-a dormir, Dona Ausenda
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              À porta se dirigia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A um gesto da bela Ausenda,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Um cavaleiro apar'cia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              De cochonilha mimosa
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Era o gibão que vestia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Em belo cinto bordado
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Punhal de prata trazia;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Nos braços do cavaleiro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Dona Ausenda se metia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ao barulho dos abraços,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A mãe os olhos abria,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Abriu-os mas não viu nada,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que o candil já se morria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Quem é que está aos abraços,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Filha, aqui ao pé de mim?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Senhora mãe, são as árvores
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que se abraçam no jardim.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Segura com tal resposta,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Logo a mãe adormecia;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Vendo-a a dormir, Dona Ausenda
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ao seu amado sorria,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Sorria e nos braços dele,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Nos seus braços se metia;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Forte corrente de beijos
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Aquelas bocas prendia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ao barulho desses beijos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A mãe os olhos abria,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Abriu-os mas não viu nada,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que o candil já se morria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Quem é que está dando beijos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Filha, aqui ao pé de mim?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Não são beijos, são as fontes,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              São as fontes do jardim.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Segura com tal resposta,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Logo a mãe adormecia...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Vendo-a a dormir, Dona Ausenda
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ao seu amado sorria,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Sorria e nos braços dele,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Nos seus braços se metia;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Era de seda lavrada
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              O corpete que a cingia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Contra o peito, o cavaleiro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Contra o peito a comprimia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Com tanta força que a seda
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Do seu corpete rangia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Com esse ranger de seda,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A mãe os olhos abria,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Abriu-os mas não viu nada,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que o candil já se morria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Quem está machucando sedas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Filha, aqui ao pé de mim?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – É o vento que arrasta folhas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Folhas secas no jardim.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Segura com tal resposta,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Logo a mãe adormecia;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Vendo-a dormir, Dona Ausenda
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ao seu amado sorria,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Sorria e nos braços dele,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Nos seus braços se metia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              E aos beijos do seu amado
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Seus lindos seios abria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              O cavaleiro os beijava
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              De tal arte que par'cia
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que os não estava beijando,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Antes que neles mordia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Com esse morder de seios,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A mãe os olhos abria
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Abriu-os mas não viu nada,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que o candil já se morria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Quem anda mordendo seios,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Filha, aqui ao pé de mim?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – É o jardineiro que morde
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Frutas verdes no jardim. (Eugénio de Castro, Rimance; sugestão de Ana, de Paladru)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/02/13

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Grandes eram meus vagares, a passo por minhas fazendas, quando vossa trova mancebo ma trouxe. Logo me pus em grandes cuidados, pois com deveras ânsias espero vossas benquerenças. Da prosa faço usança, por frouxo manejo do verso e por de verbo não ser bem servido, coisa que vos é claro de ver. Mas, já vo-lo digo, que se com tais versos pastora sois, bem provido de letrados se acha vosso reino! Não vos quero enfadar com minha prosa, mas do coração vos digo, que é de amores que me levais! Mas, para que lugar me levais, senhora? Para o vosso dócil regaço, ou para a solidão do desamparo? Que temores antevejo, em que tebaida me pondes!
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Que sei eu de amores, perguntais. Em grandes lutas me ponho, cá comigo, para não vos contar o que não é de bem que ouça de um varão, por leal conselho o digo, uma moça tão digna como vós sois. De amores não vos falaria, dir-me-íeis, mas de andanças que são próprias de moços em tenra idade. E razão tendes, versada pastora, que de tal assunto não vos saberia falar. Não soube antes dos ardis da amança, ainda que cresse sabê-lo. Sei-o agora, por seguro, e não me deixais desposar-vos! Em que nojos me vejo, que pesares me assaltam! Que aflições me chegam de vossa carta!
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Foi tal o padecimento em que me vi, que nunca na vida soube ser possível tal mágoa. De roda de vossos versos, compus-vos frouxa trova, ainda a noite estava a chegar, como se a cor do dia se ajuntasse à do meu desalento:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Quão efémero é cada sentimento,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Que, como a noite se faz dia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Logo torna o prazer em tormento,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Tão grande é meu sofrimento!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  É de amores que me levais
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Mas, dizei-mo sem mais,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Em que lugar me deixais?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Não foi esse o vil tormento
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  De uma donzela que padecia
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Quando, em súbito sofrimento,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Tombou o rouxinol que ouvia?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  É de amores que me levais
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Mas, dizei-mo sem mais,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Em que lugar me deixais?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Não soube eu o que por vós sentia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Nem que tão grande amor havia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Digo-vos do meu sentimento,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E que por vós meu reino olvidaria!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  É de amores que me levais
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Mas, dizei-mo sem mais,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Em que lugar me deixais?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vedes bem, honrada zagala, que vos tenho em grande estima e que me vejo em grandes nojos. Em vosso algoz subjugado estou, dito de muitos cavaleiros que em vós os olhos puseram. Como em prantos não me curvar? Não sabeis que pesares sinto, que fosse o dia sempre noite, tanto pesar não sentiria. Deixo-vos esta carta e fico-me em martírios, que de tanto com vós me cartear, de mais dores e temores se me enche a alma.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Condescendo: levante-se o denso nevoeiro, que se confunde com os alvíssimos montes de neve, e levantar-se-á toda a cidade com ele.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Saliéronse los dos a sestear en un portal o cobertizo que delante de la venta se hace, y sentándose frontero el uno del otro, el que parecía de más edad dijo al más pequeño:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – ¿De qué tierra es vuesa merced, señor gentilhombre, y para dónde bueno camina?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – Mi tierra, señor caballero – respondió el preguntado –, no la sé, ni para dónde camino tampoco.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – Pues en verdad – dijo el mayor – que no parece vuesa merced del cielo, y que éste no es lugar para hacer su asiento en él; que por fuerza se ha de pasar adelante.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – Así es – respondió el mediano –; pero yo he dicho verdad en lo que he dicho. Porque mi tierra no es mía, pues no tengo en ella más de un padre que no me tiene por hijo y una madrastra que me trata como alnado. El camino que llevo es a la ventura, y allí daría fin donde hallase quien me diese lo necesario para pasar esta miserable vida.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – ¿Y sabe vuesa merced algún oficio? – preguntóle el grande. Y el menor respondió:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – No sé otro sino que corro como una liebre, y salto como un gamo, y corto de tijera muy delicadamente.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – Todo esto es muy bueno, útil y provechoso – dijo el grande –; porque habrá sacristán que le dé a vuesa merced la ofrenda de Todos Santos, por que para el Jueves Santo le corte florones de papel para el monumento. (Cervantes, Novelas ejemplares, III)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Vocabulário XII – Cavalicoque: besta reles; pileca (cavalgadura pequena, ordinária).


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Gregorio de Gregoriis (ilustração do esquema moral do Inferno de Dante)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Broke the deep slumber in my brain a crash
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Of heavy thunder, that I shook myself,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      As one by main force rous'd. Risen upright,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      My rested eyes I mov'd around, and search'd
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      With fixed ken to know what place it was,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Wherein I stood. For certain on the brink
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      I found me of the lamentable vale,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      The dread abyss, that joins a thund'rous sound
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Of plaints innumerable. Dark and deep,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      And thick with clouds o'erspread, mine eye in vain
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Explor'd its bottom, nor could aught discern. (Dante, Inferno, IV)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2006/02/12

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando XXII – Quando meu coração parar desfeito / Em sombra, na profunda sepultura... (Teixeira de Pascoais)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Não é preciso ver uma caricatura da Virgem Maria num prostíbulo, todas as semanas, para saber que há liberdade de expressão. Seria um exercício pueril. A liberdade de expressão perde todo o sentido na auto-referência, isto é, quando o único conteúdo de um discurso é afirmar a própria liberdade desse mesmo discurso. Foi esse o erro dos jornais, blogues e afins que insistiram na publicação das caricaturas de Maomé até à exaustão.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              O problema dos fanáticos que incendiaram bandeiras e embaixadas, para além de uma certa estupidez que os inclina para actos primários, era outro: o dos excessos no uso da liberdade de expressão. Convenhamos: pergunte-se-lhes se estão contra a liberdade de expressão e eles dir-nos-ão que não, que a liberdade de expressão é importante e louvável; pergunte-se aos europeus se acham que há certas questões que devem ser tratadas com tacto e eles dirão que sim, que há que certos cuidados a ter para que não se ofenda gratuitamente, nomeadamente com falsidades.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Pedir desculpa aos muçulmanos ofendidos era o mesmo que pedir desculpa por Voltaire ou por Erasmo, é certo (como se diz no abaixo-assinado que por circula). No entanto, evitar a publicação exaustiva das imagens era uma questão de bom-senso, porque o problema daqueles fanáticos não é a nossa liberdade de expressão, mas sim o uso errado que dela teríamos feito. E fizemos, quando continuamente publicámos as imagens para provar que o podíamos fazer. A nossa liberdade de expressão nunca esteve prestes a acabar por causa desses fanáticos. É o seu sentido que se perde, quando se refere a si mesma. É que começamos a parecer como um qualquer pobre norte-coreano que diz que sim, que há muita liberdade de expressão na Coreia do Norte, e que o facto de o dizer é uma prova disso mesmo; e repete-o mil vezes para, talvez, se tentar convencer. Assim ninguém nos leva a sério.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Vinha isto a propósito do abaixo-assinado que referi, "Como uma Liberdade". Notando algumas coisas interessantes no texto, não deixo de notar também que faz ouvidos moucos ao problema que se levanta com os protestos daqueles fanáticos. Nunca foi uma questão de liberdade de expressão, mas de excessos, mesmo quando, como neste caso, as imagens eram bastante simples e inocentes, para não dizer – e já dizendo – desprovidas de qualquer interesse.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              (Ler, a propósito: aqui, aqui , aqui e aqui)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/02/11

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Donzela de ermo monte, recebei meus louvores, minhas honrarias e minha epístola, que vo-la escrevo por extenso por bons versos me faltarem.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Doutos versos fazeis, tais, que se comendas não as tivésseis, por tão elevadas trovas as mereceríeis, todas e tão altas que nem os mais versados poetas do vosso reino as teriam em tão grandes números e valores.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Meus dós não mos pedis, tal brio mostrais. Mas, dizei-me vivida senhora, como nos contentaremos, então, se é de amores que nos perdemos? Dizeis que minha fazenda é abonada, mas digo-vos que não, se de ventura falais. De rendas tenho bons ganhos, mas sem vossos airosos estares, não há haveres que me valham! Cuidai bem de vossos pensares, pois este cavaleiro por vós vai. Que agrados me daríeis, se em meus coutos vos visse! Aceno já vo-lo fiz, réplica não recebi.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Digo-vos então, que momento se faz, trançados torneados fazei, com fartos e luzentes retroses, se vossos estares quereis assentar no meu monte. Não vos dou caravelas para o oriente, por não as ter e por não saber onde as buscar, mas dai-me a vossa cercania e tereis a lança de um cavaleiro pasmado, que pasmoso não sou.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Em grandes cuidados me fico, com grandes saudades vos deixo. Aceitai meus encómios e minha locução, que é o que por ora vos posso ceder. Dai-me os vossos quereres, e os vossos quereres respeitarei.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – Há duas coisas de grande beleza e perfeição, o Universo e o Homem.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – Será que o Homem é belo?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – Belo não, perfeito.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Uma árvore é a coisa mais perfeita do mundo. Mais perfeita que o Homem.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – É verdade, mas nós não o sabemos.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – Não, não sabemos. (Alexander Sokurov, O Nó)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Le peintre Zeuxis avait pris la décision de donner ses oeuvres parce que, selon ses dires, elles ne pouvaient être achetées à quelque prix que ce fût. Il pensait en effet qu'aucun prix n'aurait pu être fixé qui fût susceptible de satisfaire celui qui, en façonnant ou en peignant des êtres animés, se distinguait presque comme un autre dieu parmi les mortels. (Leon Battista Alberti, La Peinture, II)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Raffaello Sanzio – Alegoria (o Sonho do Cavaleiro)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/02/10

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vossos estares não os peço, quereríeis vós,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vossos mudares já os quero, para não ter vossa vista ou voz!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  De tão azeda moça os estares rogaria
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Se vosso regaço me oferecêsseis.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Dais-me prantos e berraria,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  A mais bela fôsseis, não vos queria!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Meus estares não ofereço, quereríeis vós,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Meus mudares já os quero, para me arredar de vós!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vosso regaço me oferecêsseis,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Mais as manhas do leito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Arredásseis o que é defeito
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E as laivos do vosso jeito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Deus meu, seria esta meu cantar:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Leda donzela, quem sois, que pasmo me deixais!
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Doce donzela, mais que mil sóis brilhais!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Mas, enfim, que me dizeis que feitiços me lançareis!
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Contra vossos ardis Ele me amparará
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E dos sortilégios do Demo vos salvará.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Para vossa agrura não vejo jeitos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  A menos que rogásseis meus respeitos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vossos estares não antevejo, quereríeis vós,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vossos estares ponderaria, se ao menos pedísseis meus dós.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/02/09

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Condescendo: pusesse a mão sobre o finíssimo gelo e em cada poro se cristalizaria o sangue que, sôfrego, busca saída.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Quisésseis vós meu jeito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Meu jeito não vo-lo daria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Quisésseis vós meu jeito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Meus quereres não vo-los cantaria.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Fizésseis vós bom preito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Meu preito não vo-lo ofereceria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Fizésseis vós bom preito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Meus afazeres não vo-los contaria.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Pedísseis vós meu preceito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Meu preceito não o cederia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Pedísseis vós meu preceito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Vosso pedido não respeitaria.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Estivésseis vós no meu leito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Meu leito não usaria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Estivésseis vós no meu leito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Vossos estares eu mudaria.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Escrevi tais versos a eito, esperando vosso verso escorreito.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Raffaello Sanzio – O Sonho do Cavaleiro (estudo)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Ledo era antes de vos ver,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Prazenteiro cavaleiro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Do valoroso mester
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  De lutar com golpe certeiro.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Desejasse eu vosso olhar,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  De vossos olhos me olharíeis?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Ditoso o dia de vos fitar,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  De honrarias vos enchi.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Célere no demonstrar,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Tantos ouros vos ofereci!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Desejasse eu vos desposar,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vossa mão ma concederíeis?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Triste a hora de vos topar
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Ai! Em que deleites vos vi!
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Em que nojos me pude achar
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Quando em volúpias vos senti!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Desejasse eu vos cortejar,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Minha corte não aceitaríeis.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Era obra do Demo,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Não lhe dou outro termo,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Era vista do Orco,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Em fornicação c'um porco!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Desejasse eu vos amar,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vosso amor não mo daríeis.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  O porco guinchava,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Enquanto vos macheava.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vós no leito vos torcíeis
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E por mais ainda pedíeis!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Fizesse eu vosso jeito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  A grunhir me desejaríeis!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Cheio de nojos parti
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Para as bandas deste ermo.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vi coisa do Demo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E de muitos ascos me enchi.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Fizesse eu vosso jeito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  O meu jeito não quereríeis.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  (Actualizando: ler a resposta de uma donzela de preceito, por Nancy Brown)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/02/08

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Num enigmático artigo de Eduardo Prado Coelho (no Público, reproduzido aqui) há uma frase verdadeiramente insondável, a propósito da sua consideração de que o sagrado está "acima de tudo o mais", não devendo, portanto, ser objecto de caricaturas. Ei-la:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      "As imagens matam e o religioso não pode morrer".

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Sobre as imagens que matam, traduzo este parágrafo de Marie-José Mondzain:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      A nossa relação com a imagem e com as imagens está indiscutivelmente ligada, no pensamento ocidental cristão, ao que funda a nossa liberdade e, simultaneamente, a tudo o que põe em perigo essa liberdade, ao ponto de a destruir. É mais fácil impedir de ver do que permitir pensar. Decidimos controlar a imagem para nos assegurarmos do silêncio do pensamento e, quando o pensamento perde os seus direitos, acusamos a imagem de todos os males, com o pretexto de que ela é incontrolável. A violência feita à imagem; eis a questão. (Marie-José Mondzain, L'image peut-elle tuer?)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Nóż w wodzie, dramat psychologiczny.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          (Afonso Bivar, em viril resposta ao Anúncio)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              All at once they saw by the stream a stranger sitting and weeping.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              He held a black horse by the bridle and looked like a lion and a hero.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              His armour, saddle and bridle were thickly studded with pearls.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              The rose was frozen by tears that welled up from his grief-stricken-heart.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Over his rich apparel was flung the skin of a panther
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              And the cap on his head was made from the selfsame panther's skin.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              The whip he grasped in his hand was thick as the arm of a warrior.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              The king and his host gazed with delight on this wondrous stranger. (Shota Rustaveli, The Knight in the Panther's Skin)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/02/07

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  busca senhor tal insosso monteiro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  criadagem para bem servir
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e a bom preceito
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  um precato escuteiro,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  uma donzela asceta
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e um pajem oriundo d'alcácer quibir.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  acedo avultados meios
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  cingidos de fastidiosos trajes,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  escudo, lança, ruço
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e de alguns ataques... o recheio.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  da dama não se exigem meios
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  linhagem ou volumosas opiniões
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  prefiro sem escrúpulo e receio
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  mancebia de olhar desleal
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  apta a alinhavar
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  um ou outro lençol
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  um tanto ou quanto neutral...

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  se me tomásseis a sério
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  atrever-me-ia a postular
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  sem receio:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  acerca da arte de bem cavalgar
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e amansar a sela
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  epistolai vós
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  qu'eu disso
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  tenho muito receio!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  sempre e ao vosso dispor,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  amadis de gaula

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  (Nancy Brown, em graciosa resposta ao Anúncio)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Anúncio (é favor responder*)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Sabendo da necessidade de arejar esta cavalariça, anuncio que se aceitam poemas, ensaios, injúrias, cantigas de amigo, glosas, imagens, bivarismos**, encíclicas, bucolismos, declarações, epigramas, canções, louvores, elegias, memorandos, autos-de-fé, bilhetes, fábulas, receitas, epitáfios, ficções, dissertações, cartas de amor e afins.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Não é uma decisão que se tome de ânimo leve, nem é, tão-pouco, coisa que se arranje do pé para a mão, mas pode ser que haja uma donzela ou um donzel que, caridosamente, sinta a inclinação de colaborar com tão humilde empresa, da ensinança das manhas das bestas.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      A temática está à vista: as artes do galanteio, as finas maneiras, a cavalgação excelente e as cavalgaduras superiores, a comoção dos linchamentos e os rudimentos de metafísica. Lirismos de vária ordem são muito bem-vindos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      * Frase de ambiguidade propositada, em jeito de preito.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      ** Bivarismo: s. m. epigrama acutilante ou pensamento indecoroso (leia-se: delicioso), de contornos populares e de vocabulário denso; de Afonso Bivar.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Condescendo: há rebentos que rompem a neve para se acomodarem sob a luz solar, como se rompessem duas terras.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Adenda VIII (à última entrada) – Elementos para a caracterização do que quer que seja com base no último parágrafo de algumas obras fundamentais (consultar Adenda VI).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Les Hommes

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Donnée à La Mecque. – 6 versets.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Au nom de Dieu clément et miséricordieux.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  1. Dis: Je cherche un asile auprès du Seigneur des hommes,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2. Roi des hommes,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  3. Dieu des hommes,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  4. Contre la méchanceté de celui qui suggère les mauvaises pensées et se dérobe;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  5. Qui souffle le mal dans le coeurs des hommes;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  6. Contre les génies et contre les hommes. (Alcorão, CXIV)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/02/06

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Não se sabe o que o último rei dos Romanos queria dizer ao morrer.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Quaesivit cum moriebatur ubi essent umbrae.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Perguntou ao morrer:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – Onde estão as sombras?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      [...]
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Quaesivit cum moriebatur ubi essent umbrae. O rei perguntou: Onde estão as vespas amarelas quando a neve cai no caminho gelado? Onde está o Inferno? O meu pai, quando soltou um pequeno grito e me concebeu, tinha os olhos postos em quê? Onde está Virgílio? (Pascal Quignard, As Sombras Errantes)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando XXI – Se eu alguma vez chegasse a conseguir dizer apenas as sílabas exactas que fundissem a ideia e a coisa numa aguda cintilação discreta... (Susana Bês)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2006/02/05

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Condescendo: há no vidro cristais de gelo que estão mais vivos que todas as outras flores do Mundo, e junto-lhes o calor do corpo para que melhor surdam na pele.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Dentro do Inverno, todos os domingos deviam começar assim. Todos, porque o sol é o sol é o sol.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Os Fogos

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Ouvir-lhes a estridência
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      o estalar das labaredas e as absorções repentinas de ar. O fôlego
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      repentino, a sucção da totalidade dos sons.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          You have never been in love,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Until you've seen the sunlight thrown
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          over smashed human bones. (Morrissey, First of the Gang to Die)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2006/02/03

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Labiologia VIII – Das manhas de bem açoitar as crianças, a ler aqui. Ou da contribuição de uma serrana nova e bonita para os preceitos da pedonomia.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Memorando XX – E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue... (Herberto Helder)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Dorota Buczkowska – Domação (fotograma).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2006/02/02

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Condescendo: há rios que correm sob as enormes camadas de gelo, a água-queda sobre a água. Assim o sangue sob a pele, sangue-quedo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              O you whom I often and silently come where you are that I may be with you,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              As I walk by your side or sit near, or remain in the same room with you,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Little you know the subtle electric fire that for your sake is playing within me. (Walt Whitman, Calamus)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              À Carla Quevedo, reverencialmente, por salientar este livro de ensinanças. (Isto porque não há a primeira pessoa do singular do verbo "ronronar").

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/02/01

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  A Vida Áurea

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Por vezes não deseja os extremos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  o homem. Respira o ar mediano
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  na meia-cena. Encosta o dorso
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  no espaldar, e um dia tenta
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  levantar-se, como se a ser sugado
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  pelo grande Cacus, monstro da caverna.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Na mitologia, esse homem era
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  o simples, o perdedor eufórico.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Come de sua casa, veste de sua lã,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  viajará na azémola. (Fiama Hasse Pais Brandão, Cenas Vivas)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Epístola III

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Aproxima-se o Natal, o primeiro depois da tua partida. Lembro-me de passá-lo com suficiente alegria, quando era mais nova. Suficiente: nem mais, nem menos. Como as tuas primeiras aventuras em Viena, suponho, numa vida passada na miséria mas sempre contada com um certo enlevo. Uma vida suficiente. Li mais algumas palavras da tua carta, esta manhã.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando XIX – Eu vinha para a vida e dão-me dias. (Ruy Belo)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Uma das vidraças de que falava anteriormente caiu mesmo à minha frente. É desses escassos centímetros que nos separaram que me ergo para mais umas horas, mais uns dias.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vocabulário XI – Estardiota: processo de cavalgar, estendendo bem as pernas; brida.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/01/31

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Há bons e maus críticos. Eu medirei o quanto vale para mim uma crítica de alguém quando me deparar com a obra, isto é, quando perceber se o que o crítico escreveu faz ou não faz sentido. Ora, se percebo que o crítico estava a prestar serviços pessoais (seja por questões de amizade, de influência ou de qualquer outra coisa), estou no bendito direito de deixar de ler as suas críticas ou, se me apraz tal tipo de exercício, de continuar a lê-las descansadamente. Há muita imprensa e, logo, muitos críticos. Que alguns façam do seu emprego um palanque para anunciar a grandeza dos amigos, é lá com eles. Eu, por mim, não lerei as suas críticas. Mas há quem as leia e aprecie, e isso é com cada um.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      O problema que está por detrás de tudo isto é outro, a saber, se a crítica portuguesa se esgota neste círculo de suposto favorecimento de amigos. A isto não se dará resposta, nem parece interessar muito.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      O caso que rola aí (lá se vão os tempos em que rolavam as cabeças...) é uma paródia. O João Pedro George diz que o José Mário Silva favoreceu um amigo. O José Mário Silva diz que não senhor, não fez nada disso. O José Pacheco Pereira, de armas em punho, dispara em todas as direcções, como sempre, para melhor se defender. O Paulo Pinto Mascarenhas desconfia, e bem, destes tiros sem alvos visíveis. O Pedro Mexia explica-se, não vá uma das balas na sua direcção.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Mas, já o sabemos: quem não gosta do Diário de Notícias, que não o compre, como alguns não compravam o Expresso quando o director era aquilo que se sabe... Ou que se faça como diz o Afonso Bivar: que cada crítico apresente uma grelha crítica. O problema levantado pelo João Pedro George, legítimo (ainda que possa estar completamente errado), descambou num corrupio de acusações. O excesso, parece-me, é de um pistoleiro receoso. É que, antes de mais, a única coisa que poderia interessar acerca do trabalho do crítico é o de saber se o caso português se esgota neste círculo de favorecimento. Se assim não é, bem podemos perceber (não é preciso puxar muito pela cabeça) que há quem escreva sobre amigos, quem não escreva sobre amigos, quem escreva sobre inimigos, quem escreva contra inimigos e quem escreva para amigos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      (Actualizando: ler mais sobre o assunto aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e ainda aqui e aqui).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando XVIII – No sabe qué es amor quien no te ama. (Lope de Vega)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Labiologia VII – Sobre as ensinanças das artes da carne, ler isto, na Casa de Osso.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  A temperatura subiu e, com ela, subiram os imensos pássaros de Inverno. Nos telhados, porém, esperam vidraças de gelo, ameaçadoramente cortantes. Esperam que passe alguém para abrirem em sangue, como quem rasga um naco de carne para comer.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Clio (Tarocchi del Mantegna)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Si dios eres, Amor, ¿cuál es tu cielo?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Si señor, ¿de qué renta y de qué estados?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ¿Adónde están tus siervos y criados?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ¿Dónde tienes tu asiento en este suelo?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Si te disfraza nuestro mortal velo,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ¿cuáles son tus desiertos y apartados?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Si rico, ¿do tus bienes vinculados?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ¿Cómo te veo desnudo al sol y al yelo?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ¿Sabes qué me parece, Amor, de aquesto?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Que el pintarte con alas y vendado,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          es que de ti el pintor y el mundo juega.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Y yo también, pues sólo el rostro honesto
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          de mi Lisis así te ha acobardado,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          que pareces, Amor, gallina ciega. (Francisco de Quevedo, Soneto Amoroso)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2006/01/24

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Estão vinte graus negativos em Varsóvia, mais coisa, menos coisa. Ajeito o cachecol e saio. Entro, todo, na neve. O frio entra, todo, em mim. Lembro as seguintes palavras:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              L'action d'une substance finie sur l'autre ne consiste que dans l'accroissement du degré de son expression joint à la diminution de celle de l'autre, en tant que Dieu les oblige de s'accommoder ensemble. (Leibniz, Discours de métaphysique).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Acomodemo-nos, então. Crescem a neve e o frio. Diminuo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Torna, prendimi spesso, amato spasimo,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Torna quando del corpo la memoria
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Si ralluma, in quegli istanti prendimi:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Quando riagita il sangue le remote
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Sue voglie e a labbra e carne si agglutìnano
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  I ricordi, e sulle mani ancora
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  La sensazione del toccare infuria.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Torna più volte, prendimi di notte,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Tutta la carne nel ricordo tendimi. (Constantinos Kavafis, Un’ombra fuggitiva di piacere)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Labiologia VI – Dias Felizes. Ler tudo. Lê-lo todo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Observação IV – "Chcę być i będę prezydentem wszystkich Portugalczyków". Citação do novíssimo eleito para a Presidência da República Portuguesa (não o menciono porque um blogue quer-se decente), reproduzida num jornal polaco (Gazeta). "Quero ser e serei presidente de todos os portugueses", reza o veredicto, mais coisa, menos coisa. Eu, que sou elementar nas lides da língua polaca, insisto num ponto simples: não se percebe, seja em que língua for. Ponham-nos a votos com uma série de candidatos completamente incapazes e ignorantes (isto é: sem projectos, sem ideias sustentadas ou sustentáveis, sem um profundo conhecimento da situação nacional, sem o entendimento claro dos seus deveres). Escolha-se um, por decisão democrática. Ele diz-nos, então, que quer ser e é presidente de todos nós. Nós achamos por bem e congratulamo-nos. A escolha foi bem feita. Eu não percebo a frase.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          (Actualizando: ler ainda uma coisa muito simples, no Bombyx Mori).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2006/01/23


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Giovanni Volpato – Clio


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Looking up at the stars, I know quite well
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              That, for all they care, I can go to hell,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              But on earth indifference is the least
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              We have to dread from man or beast.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              How should we like it were stars to burn
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              With a passion for us we could not return?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              If equal affection cannot be,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Let the more loving one be me.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Admirer as I think I am
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Of stars that do not give a damn,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              I cannot, now I see them, say
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              I missed one terribly all day.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Were all stars to disappear or die,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              I should learn to look at an empty sky
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              And feel its total dark sublime,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Though this might take me a little time. (W. H. Auden, Homage to Clio)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Labiologia V – "Ah! Cielo, si può, si può morir...!" A ler aqui (Educação Sentimental).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2006/01/22


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Théodore Géricault – Fragmentos Anatómicos

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          In the green morning
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          I wanted to be a heart.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          A heart.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          And in the ripe evening
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          I wanted to be a nightingale.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          A nightingale.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          (Soul,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          turn orange-colored.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Soul,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          turn the color of love.)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          In the vivid morning
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          I wanted to be myself.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          A heart.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          And at the evening's end
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          I wanted to be my voice.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          A nightingale.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Soul,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          turn orange-colored.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Soul,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          turn the color of love. (Federico García Lorca, Ditty of First Desire)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Epístola II

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A impossibilidade do nosso amor não deixa de se impor a cada dia que passa, como se crescesse com o esboroamento da memória. É claro, meu estimado, que as lembranças que guardo de ti se dissiparão, à medida que os dias passem. Mas sei também que a impossibilidade do nosso amor crescerá ao mesmo ritmo que tu te desmoronas nas minhas recordações. Não quero ser rude, nem insensível, mas a honestidade obriga-me a dizê-lo: acabas-me com a vida porque te acabas na minha memória. O nosso filho, o Daniel, será ainda a única faúlha tua que carrego. Amo-o, mas é um peso. Ainda me visto de negro, quando lhe seguro a mão, como se segurasse aqueles dias de lamentos copiosos que foram os da nossa proximidade. Amá-lo-ei, de facto?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/01/21


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Johann Heinrich Füssli – O Sonho do Pastor (Labiologia IV)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Antonello da Messina – São Sebastião

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Uma contribuição, com um atraso injustificável. Sobre esta pintura, uma citação:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Le thème est parfaitement respecté, explicité même dans ces cinq flèches qui, selon une symbolique courante à l’époque, évoquent les cinq plaies du Christ et écrivent sur le corps comme les cinq lettres du mot amore (divin). (Daniel Arasse, Le Détail)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Adenda VII (às Epístolas) – Esta é uma série de cartas em resposta a Alexis, depois da leitura do romance de Marguerite Yourcenar (Alexis, de 1929), tendo Mónica por remetente. As seguintes palavras dão azo, de algum modo, a este exercício epistolar:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Pensei algumas vezes em escrever uma resposta para Mónica que, sem contradizer em nada a confidência de Alexis, esclareceria certos pontos dessa aventura, dando-nos da esposa uma imagem menos idealizada, mais completa. Por enquanto, renunciei a este projecto. (Marguerite Yourcenar, no prefácio à 2.ª edição de Alexis, de 1971)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Epístola I

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que nunca me tenhas amado é, definitivamente, a mais leve das palavras da tua longa carta. Li-a toda e, como cabe a quem tanto lhe apraz esgotar-se no prazer esquisito do sofrimento, reli-a vezes sem conta. Insisto: que nunca me tenhas amado é o que de menos doloroso há nas tuas confissões. Não tinha quaisquer dúvidas, depois da nossa viagem por Itália, de quão difícil seria deixar o holocausto de sentimentos que nos havia tomado e que, estranha mas acuradamente, chamas de aridez do coração. Considero, ainda hoje, que a única oblação que recebi foi, durante o período do nosso casamento, o teu repentino desaparecimento.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Escrevo-te sem estar segura de enviar esta carta. No entanto, não posso passar sem te responder, para que possa expiar o tormento de te ter perdido sem nunca te ter achado. É uma carta de padecimento, enfim, que não podia começar de outra maneira que não com a evidência da mais singela das verdades, a de que nunca tiveste qualquer tipo de sentimento de arroubo por mim. Nesta carta tentarei explicar-te que a razão da minha dor não foi, nunca, a da inexistência de tal afecção, mas o abismo de aflições que a certeza da impossibilidade de qualquer amor traz.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Depois de ler a tua carta, pela primeira vez, ainda fui tomada por um pensamento absurdo que, porém, tinha tudo para me satisfazer quanto ao motivo do meu pesar. Ocorreu-me que a nossa relação não passasse dessa mesma carta, dessas palavras francas que foram escritas, seguramente, do fundo do coração. Não seria prova de amor suficiente? Poderão muitas pessoas congratular-se, sequer, por tal partilha de amarguras? Tomei-me pela mais amada do Mundo, por aquela que foi enlevada pela partição das dores de toda uma vida. A vida de alguém que, no entanto, nunca se atreveu a amar assim tão cruamente, com lábios e mãos, mas, tão-só, com a lisura da falta de amor. Foi um pasmo momentâneo.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Não me amas, nem nunca me amaste. Amar-me-ias, agora, desaparecido? Entendo, hoje, que o fundo do coração, de onde saíram as tuas palavras, não guarda qualquer amor. O fundo do teu coração é a morada do meu padecimento. É daí que as tuas palavras vêm, e é por isso que tas reescrevo do fundo do coração, também. Não por ressentimento, claro, pois não o guardo, mas porque isto foi tudo o que nos pudemos dar, um ao outro. Dar-to-ei, de novo. É por isso que te escrevo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/01/20

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Labiologia III – Terceira labiologia, segunda razão para ler estoutro blogue, que se enche de coisas bonitas, como esta: "Onde mágoas levam alma, / vão também corpo levar". A ler aqui. Em jeito de piscar de olhos, um excerto:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Dizem que havia um pastor
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  antre Tejo e Odiana,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que era perdido de amor
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  per Da moça Joana.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Joana patas guardava
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  pela ribeira do Tejo,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  seu pai acerca morava
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e o pastor de Alentejo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  era, e Jano se chamava.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Quando as fomes grandes foram
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que Alentejo foi perdido,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  da aldeia que chamam o Torrão
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  foi este pastor fugido.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Levava um pouco de gado,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que lhe ficou doutro muito
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que lhe morreu de cansado;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que Alentejo era enxuito
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de água e mui seco de prado.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Toda a terra foi perdida;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  no campo do Tejo só
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  achava o gado guarida:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Ver Alentejo era um dó!
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E Jano, pera salvar
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  o gado que lhe ficou,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  foi esta terra buscar;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e, se um cuidado levou,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  outro foi ele lá achar.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  O dia que ali chegou
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  com seu gado e com seu fato,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  com tudo se agasalhou
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  em üa bicada de um mato.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E levando-o a pascer,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  o outro dia, à ribeira,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Joana acertou de i ver,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que se andava pela beira
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  do Tejo, a flores colher.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vestido branco trazia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  um pouco afrontada andava,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  fermosa bem parecia
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  aos olhos de quem na olhava.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Jano, em vendo-a, foi pasmado;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  mas, por ver que ela fazia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  escondeu-se antre um prado:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Joana flores colhia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Jano colhia cuidado. (Bernardim Ribeiro, Écloga II)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Pisanello – Estudo de Cabeças de Cavalo

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Teso na sela, com as rédeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroísmo; ambicionava uma espada, uma lei, um deus por quem combater... (Eça de Queirós, A Relíquia)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Vocabulário X – Coldre: cada um dos dois estojos pendentes do cinturão ou do arção da sela, para trazer pistolas ou outras armas; rameira; mulher pública.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/01/19


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  (Mitzuko and Jun hear a loud noise outside)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Mitzuko: Was that a gun?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Jun: Probably. This is America. (Jim Jarmusch, Mystery Train)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Labiologia II – Expirar nuvens.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Marinha, en tanto folegares
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          tenho eu por desaguisado;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          e sõo mui maravilhado
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          de ti, por non (ar)rebentares:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          ca che tapo eu (d)aquesta minha
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          boca a ta boca, Marinha;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          e con estes narizes meus
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          tapo eu, Marinha, os teus;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          e co'as mãos as orelhas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          os olhos e as sobrancelhas;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          tapo-t'ao primeiro sono
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          da mia pissa o teu cono,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          como me non vej'a nenguu,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          e dos colhões esse cu.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Como non rebentas, Marinha? (Afonso Eanes de Coton, Cantiga d'Escarnho)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Memorando XVII – hei-de pedir à noite / que me consuma com ela. (António Gancho)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2006/01/18

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vocabulário IX – Mesentério: dobra do peritoneu (membrana serosa que reveste interiormente as paredes do abdómen e recobre os órgãos nele contidos) que envolve e mantém em posição os intestinos.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Pieter Bruegel, o Velho – Terra de Cocanha

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Here's my view of these many centuries: One worse than the other, if you ask me. A break in the clouds here and there, an afternoon nap in the shade in the arms of the one and only, maybe a kiss or two, and that's about it. Sooner or later, the meal gets eaten, the last drop of tomato sauce runs down your chin and you're left with just some chicken bones on your plate. The rest of the time its plagues, wars, famines, persecutions, exile and hundreds of other calamities and miseries.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          I suppose you think I am exaggerating? You imagine yourselves, of course, in a Renaissance palazzo attended and closely fussed over by numerous servants while you argue about the paintings of Titian and Campanella's "City of the Sun" with princes and high-born floozies. Don't make me laugh. All I see is open sewers in the streets reeking with stench of horse and human excrement, while nearby a twelve year old witch is being burnt at the stake by the Inquisition. (Charles Simic, Defence of Poetry)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2006/01/17

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Labiologia I – Excelentíssimo, este pedaço de romance tradicional no Abrigo de Pastora, com doçuras como esta: "mandai-me a mim degolar".

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Reverencialmente, acrescentando à série das frases que impõem respeito:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Voici la chose. (François Truffaut, Jules et Jim)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      A propósito desta entrada na Seta Despedida, sobre a pintura de Hans Holbein, vale a pena ler o seguinte:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Pour voir le crâne et l'identifier comme tel, celui qui regarde doit en effet se placer sur la gauche du tableau, plus bas que son cadre, quelque chose comme à genoux de côté (...). Celui qui regarde doit donc venir se placer exactement au pied du petit crucifix qui, de l'angle supérieur gauche, a le regard porté vers la configuration obscène. (Daniel Arasse, Le Détail)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2006/01/16

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Eurydice appeared brindled in blood
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          And she said to Orpheus
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          If you play that fucking thing down here
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          I'll stick it up your orifice! (Nick Cave, The Lyre of Orpheus)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Hoje acordei assim, como se a terra me exigisse violentamente.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Memorando XVI – Trago o corpo de minha mulher embrulhado num lençol. É estranho como pesa. Dir-se-ia que a terra o exige com violência. (Vergílio Ferreira)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      When you are old and gray and full of sleep
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      And nodding by the fire, take down this book,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      And slowly read, and dream of the soft look
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Your eyes had once, and of their shadows deep;

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      How many loved your moments of glad grace,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      And loved your beauty with love false or true;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      But one man loved the pilgrim soul in you,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      And loved the sorrows of your changing face.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      And bending down beside the glowing bars,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Murmur, a little sadly, how love fled
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      And paced upon the mountains overhead,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      And hid his face amid a crowd of stars. (William Butler Yeats, When You are Old)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Bernardo Bellotto – Vista de Varsóvia do Palácio Real

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2006/01/15

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: "Verei dali a janela do meu quarto." Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro, talvez, ou Janeiro. Tiro a neve com uma pá, traço o rectângulo e cavo. Dois cães assomam à porta do quintal, chupados de ódio e de fome. Ainda há cães pela aldeia? Babam-se e uivam sinistramente. Tomo uma pedra, disparo-a contra um, desaparecem ambos a ganir. E de novo o silêncio cresce a toda a volta, desde a montanha que fico a olhar até me doerem os olhos. Olho-a sempre, interrogo-a. (Vergílio Ferreira – Alegria Breve)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2005/11/06

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Seraghina, que dança por dinheiro num lugar inverosímil (Otto e Mezzo), terá sido, porventura, a mais extravagante das abjeccionistas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2005/10/26

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Memorando XV – Cai na terra que tem defunta palidez. (Teixeira de Pascoaes)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/10/23

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Menelau, descrito na Ilíada como um "amolecido lanceiro", terá sido, porventura, o primeiro dos abjeccionistas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Adenda VI (às duas últimas entradas) – Elementos para a caracterização do que quer que seja com base no último parágrafo de algumas obras fundamentais.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Elle se leva, lui rendit sa main en signe d'adieu. Mais il lui prit le visage entre les paumes et l'embrassa. Kyo l'avait embrassée ainsi, le dernier jour, exactement ainsi, et jamais depuis des mains n'avaient pris sa tête.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  - Je ne pleure plus guère, maintenant, dit-elle, avec un orgueil amer. (André Malraux, La Condition humaine)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Foi assim, ó Gláucon, que a história se salvou e não pereceu. E poderá salvar-nos, se lhe dermos crédito, e fazer-nos passar a salvo o rio do Letes e não poluir a alma. Se acreditarem em mim, crendo que a alma é imortal e capaz de suportar todos os males e todos os bens, seguiremos sempre o caminho para o alto, e praticaremos por todas as formas a justiça com sabedoria, a fim de sermos caros a nós mesmos e aos deuses, enquanto permanecermos aqui; e, depois de termos ganho os prémios da justiça, como os vencedores dos jogos que andam em volta a recolher as prendas da multidão, tanto aqui como na viagem de mil anos que descrevemos, havemos de ser felizes. (Platão, República)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Sancho Pança entre dans le cinéma d'une ville de province. Il cherche Don Quichotte. Il le trouve assis à l'écart qui fixe l'écran. La salle est presque plein, le balcon, qui ressemble à une énorme loge, est tout entier occupé par des enfants turbulents. Sancho essaie plusieurs fois de rejoindre Don Quichotte. En vain. Il s'assoit à contrecoeur dans la salle, près d'une petite fille (Dulcinée?) qui lui offre une sucette. Le film a déjà commencé: c'est un film en costumes; sur l'écran on voit courir des cavaliers en armes. Soudain apparaît une femme. Elle est menacée. Don Quichotte se dresse d'un coup, dégaine son épée, se jette contre l'écran et commence à lacérer la toile. (Giorgio Agamben, Profanations)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2005/09/23

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Memorando XIV – O rosto desce, deflagrando. (Nuno Guimarães)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2005/09/05

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Les Saints de Dieu sont cachés avec lui dans le voile de l'intimité. Comme les jeunes filles gardées dans la maison, personne ne les voit, ni en ce monde, ni dans l'au-delà, sinon les quelques proches pour qui la visite est licite. Quant aux autres, ils ne les voient que pris dans leur voile. En verité, ils ne voient que le voile. (Abdelwahab Meddeb, Les Dits de Bistamî)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Relato IV – Escolhi ir de camioneta, transporte duvidoso no Uruguai, disse-me um taxista, também ele duvidoso, muito mais que qualquer camioneta destruída que me pudessem apresentar. De qualquer modo, já usava há bastante tempo as da província polaca, que são tão velhas quanto o mais decadente e cinzento dia do regime soviético. A central de camionagem fazia-me lembrar, aliás, os edifícios das corridas de cavalos de Varsóvia, que são, por si só, um espectáculo de homenagem a esse taciturno e alquebrado dia. Não havia lugares vagos na camioneta. A música era ensurdecedora, mas podia muito bem ser o piano excêntrico, belo e sério de Satie.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/08/29

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Hay cosas tan delicadas que se hace bien en sepultarlas bajo una grosería para que se vuelvan irreconocibles; hay actos hechos por amor y por una generosidad desmedida tras los cuales lo mejor que puede hacerse es coger un bastón y apalear al testigo: de ese modo se le nublará la memoria. (Nietzsche, Más allá del bien y del mal)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Observação III – Passar uma tarde de domingo a assistir às corridas de cavalos no recinto de Varsóvia não é uma experiência desagradável. Muito pelo contrário, parece estar cheia de coisas bonitas que não se esquecem facilmente. Enumerarei algumas. Um edifício só para os apostadores a sério: os que têm imensos acessórios dourados, dentes de prata, carteiras de couro, que comem farinheira, conduzem um carro alemão comprado na Ucrânia e que só bebem cerveja polaca – piwo, que talvez partilhe a raiz etimológica de piela. Instalações anteriores à guerra, lembrando que a cidade foi quase totalmente arrasada – fatalidade a que aqueles edifícios não parecem ter resistido. Uma audiência espantosa, deixando no ar a dúvida sobre o objecto da aposta: ou a vitória dos cavalos ou, quem sabe, o equilíbrio dos próprios apostadores. Jóqueis com nomes como Popov ou Carvalho [sic]. Um cavalo – Predator, de sua graça – cuja mãe [sic] foi baptizada com o nome de Penetracja [sic]; outros nomes seguem aqui: Bolero, Demonstrator (cavalo alemão), Spanio, Super Power, Bomba, Barbie (e inúmeras variantes), etc., até porque a indecência tem limites. De lembrar as seguintes palavras:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Tout phénomène qui relève de l'esprit, c'est-à-dire tout phénomène qui a une signification, est «significatif» par cela justement qu'il dépasse ses limites, qu'il est l'expression et le signe de quelque chose qui a une portée spirituelle plus large et plus générale, tout un monde de sentiments et de pensées qui ont trouvé en lui une incarnation plus ou moins parfaite, ce qui donne précisément le degré de sa signification. (Thomas Mann, La Montagne magique)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2005/08/27

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Concorda il tuo voler con quel di Dio,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  E verratti compiuto ogni disio:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Se povertà ti stringe o doglia senti,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Va' in su la croce a Cristo per unguenti. (Cennini, Libro dell’arte)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Relato III – Decidi que me levantaria muito cedo, no dia seguinte. Se chegasse a encontrar o tal cavalo cristalino, puríssimo, teria de ser quando a aurora se instalasse, calma, extinguindo a noite. Já o imaginava, na manhã nívea, troteando no planalto extensíssimo. (Pus-me a pensar, recordo-o bem, no Vístula. Encontraria aqui, quiçá, as margens do rio varsoviano?) No entanto, o hospedeiro – um homem pouco sério, dado a falar de política, disse-me a cozinheira num linguarejar difícil de acompanhar – não bateu à porta por volta das cinco da manhã, como havíamos combinado. Um pouco decepcionado por ter perdido um período propício, desci para tomar o pequeno-almoço. De facto, o velho hospedeiro insistia na política, comparando a situação actual do Uruguai à da época do desembarque dos trinta e três, acontecimento que dera nome à região administrativa e à cidade, ainda que não fizesse sentido nenhum. Ocorreu-me que a política teria deixado de ser um assunto sério quando, por razões que aqui não se tratarão, se deixou de usar cartola e se perdeu o bendito hábito de açaimar as bestas. Foi então que decidi partir imediatamente para o campo, tendo deixado o pão por ensopar na malga de leite. Comprei mantimentos e, com o caminho previamente – e primitivamente – cartografado, pus-me a caminho. Deixei Trinta e Três a meio da manhã, já a cidade bulia.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/08/23

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando XIII – Olhos portadores de luz. (Platão)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              E este Busballrao herdou o reyno per morte de seu pay Narsanayque, e reynou seis anos nos quoaees sempre teve a guerra, porque tanto que o pay foy morto, llogo toda a terra foy alevamtada pellos capitãees, hos quoaees em pouco tempo forão por este rey destroydos, e as terras tomadas, e tornadas debaixo de seu senhorio; estes seis anos gastou elrey, em tornar a terra ao que era d antes, outo contos de pardaos d ouro; este rey morreo de sua doemça na cidade de Bisnaga, e antes que morrese, mamdou chamar Salvatimya, seu regedor, e mamdou trazer hũu filho seu que tinha d outo anos, e dise a Sallvatina que, tanto que elle morresse, alevamtase a seu filho por rey, posto que não fosse em ydade pera ysso, posto que a Crisnarao seu yrmão pertemcya ho reyno, ou que a elle lhe tirase os olhos, e lhos trouxese a mostrar per despois de sua morte não aver no reyno allgũas diferemças, dizemdo Salvatina que asy o farya; se foy, e mamdou chamar a Crisnarao seu yrmão, e o levou a hũa estrebaria, e lhe dise como seu yrmão lhe mamdava tirar os olhos, e que fizesse a seu filho rey. Ouvido ysto, Crisnarao disse que não queria ser rey, nem nada de seu reyno, posto que de direito lhe viesse, que elle se querya hir por esse mumdo como Jogue, e que lhe não tirasse os olhos, pois que não tinha feito por que a seu yrmão; vemdo ysto Sallvatina, e vemdo o homem de vinte e tantos anos, tanto pera ser rey, como adiante vereis, mais que ho filho de Busballrrao, que hera de oyto anos, mamdou trazer hũa cabra, e lhe tirou os olhos, e os levou a mostrar a elrey, porque jaa esta hera a derradeira ora de ssua vyda, e lhos apresentou, e tanto que elrey foy morto foy allevantado por rey seu yrmão Crisnarao, a quem elle mamdara tirar os olhos. (Crónica dos Reis de Bisnaga)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2005/08/21

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vocabulário VIII – Albarda: espécie de sela feita de pano grosseiro ou lona, cheia usualmente de palha, para bestas de carga; opressão; peso; vexame.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2005/08/16

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      poderemos, um dia, amar estas vitrinas
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      como quem ama uma ideia imperdoável, ou uma
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      breve hesitação dos condutores
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      a meio do percurso? quero dizer,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      estaremos vivos para o desbotar destas
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      folhas de plástico que brilham
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      uma vez cada noite; e para
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      o assobio das nuvens
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      ao passar sobre a roupa?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      ou, fechando a gaveta, engoliremos o receio
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      destes bolos roubados
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      na prateleira de água?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      ou será este o dilema que nos propõem
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      as minuciosas escavações telefónicas?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      são questões ignorantes, delas depende o rumo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      dos grandes navios japoneses à entrada da doca. (António Franco Alexandre, Os Objectos Principais)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          E tanto que foy noute, e as oras chegadas, elrey teve cuydado de se sahir, e milhor teve elle, que avia pedaço que o estava esperamdo, e asy damdo aviso aos adargueyros, o quoal tanto que foy na horta, passamdo por emtre dous, que erão as goardas, remeterão a elle, e o matarão, e foy llogo soterrado ao pee de hũu arvore na mesma horta, e ysto acabado sem saberem quem matarão, ho tredor lho agradeceo, e se foy pera sua pousada a fazer prestes pera se sahir fora da cidade, e tambem por não dar causa a fallarem nelle. E outro dia pella manhaa foy elrey achado menos, e buscado por toda a cidade, o quoal se não achou nenhũa nova d elle, cuydamdo todos ser fugido pera allgũa parte, omde podese fazer guerra a Narsenayque, ao quoall loguo foy ter a nova, mostramdo por ysso muito sentimento, fazemdo se prestes todavya de cavallos e alyfantes pera se no reyno ouvesse allgũu rebollyço pella morte d elrey, que aymda não sabia certo como era, mays que ser des aparecido, e depois d isto veyo quem ho matou, e deu lhe conta da maneyra que tevera, e quoão secretamente fora morto, que os mesmos que ho matarão, ho não sabião, ao quoal Narsenayque fez muyta merce; e por não aver nova nenhũa d elrey, e por elle ter tudo de sua mão, foy alevamtado por rey de toda a terra de Narsymga; e d este rey ficarão por sua morte cinco filhos, hũu se chamava Busbalrao, e outro Crismarao, Tetarao, e outro Ramygupa, e outro Ouamysyuaya. (Crónica dos Reis de Bisnaga)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Domenico Veneziano – São Zenóbio Faz um Milagre

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2005/08/11

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Relato II – Chegado a Montevideu, procurei alojamento para uma noite. No dia seguinte, arranjei transporte para o meu destino, o Departamento de Trinta e Três. Estava decidido a encontrar o melhor cavalo do mundo, seguindo as instruções de D. Duarte, de Lie Tse e de Xenofonte (e aqui), não deixando de lado, no entanto, os conselhos sempre sábios dos locais. A razão para escolher o Uruguai não podia ser mais simples: estava seguro de que, a encontrar a melhor sela conhecida, teria de ser no Planalto Cristalino; um nome destes só pode agourar boas coisas. Era essa, afinal, a qualidade que procurava, depois do cruzamento de informações: um animal cristalino; límpido e puro como um cristal. A região de Trinta e Três, que ocupa uma boa parte desse planalto, pareceu-me a mais aprazível para me acomodar.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Vocabulário VII – Cavaleiro andante: o cavaleiro que, para ganhar fama ou para alcançar a mão da sua dama, ia correr mundo em busca de aventuras e justas, lutando em torneios.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/08/08

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Relato I – Atravessava o Rio da Prata, entre uma pequena cidade argentina e Montevideu, quando vi pela primeira vez um cavalo uruguaio. Há muito que imaginava as histórias que se contariam por aquelas bandas, onde seguramente as bestas teriam sido de uso proveitoso, mas não esperava vê-los ainda antes de chegar ao cais da capital, já afastado demais da Argentina para poder vislumbrar o que quer que fosse. O dono do animal era um homem de aspecto curioso, talvez um pouco engraçado, com bons ares e mostrando ser versado nas artes do cuidado equestre: a sela aprumada, as ferraduras impecáveis, a besta robusta. Explicou-me que o levava sempre que ia de barco, não fosse dar-se outro desembarque e faltar alguém para completar o grupo de trinta e três cavaleiros ou mesmo uma besta para montar! Disse-mo com toda a alegria do mundo, assim, exclamativamente. Eu conhecia um pouco da história da independência do país, mas estava longe de imaginar que alguém levasse um cavalo à espera que tal voltasse a cumprir-se. Pensei que sempre que passasse por Aljubarrota deveria levar comigo um saco de farinha, não fosse o Diabo tecê-las.


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Hans Baldung Grien – O Cavaleiro, a Jovem e a Morte

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Memorando XII – A extinção dos corpos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Ter a planta nua do pé sobre a terra e sentir, à flor da pele, o viço do chão: as folhas findas e orvalhadas, os torrões como dedos, os bichos em alvoroço por causa da catástrofe do pé. E perceber que sempre o corpo se afunda um pouco, que sempre se inclina para o soterramento. O incrível medo de ser sugado, arrastado para dentro da terra, de dar o pé à morte como quem dá a mão num bailarico de domingo à tarde. Aliás, num cemitério o viço do chão é o reboliço subterrâneo: os bichos à procura das carnes que ainda se aguentam coladas aos ossos, à procura da extinção dos corpos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando XI – Ban-the-child-who-pulls-wings-from-dragonflies movement.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – So you don't vouch for the art-as-technique-pure-and-simple theories of Stravinsky, for instance?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Certainly not. That's quite literally the last thing art is.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Then what about the art-as-violence-surrogate theory?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – I don't believe in surrogates; they're simply the playthings of minds resistant to the perfectability of man. Besides, if you’re looking for violence surrogates, genetic engineering is a better bet.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – How about the art-as-transcendental-experience theory?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Of the three you've cited, that's the only one that attracts.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Do you have a theory of your own, then?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Yes, but you're not going to like it.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – I'm braced.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Well, I feel that art should be given the chance to phase itself out. I think that we must accept the fact that art is not inevitably benign, that it is potentially destructive. We should analyze the areas where it tends to do least harm, use them as a guideline, and build into art a component that will enable it to preside over its own obsolescence...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Hmm.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – ... because, you know, the present position, or positions, of art – some of which you've enumerated – are not without analogy to the ban-the-bomb movement of hallowed memory.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – You surely don't reject protest of that kind?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – No, but since I haven't noticed a single ban-the-child-who-pulls-wings-from-dragonflies movement, I can't join it, either. You see, the Western world is consumed with notions of qualification; the threat of nuclear extinction fulfills those notions, and the loss of a dragonfly's wings does not. And until the two phenomena are recognized as one, indivisible, until physical and verbal aggression are seen as simply a flip of the competitive coin, until every aesthetic decision can be equated with a moral correlative, I'll continue to listen to the Berlin Philarmonic from behind a glass partition. (Glenn Gould, Glenn Gould Interviews Glenn Gould About Glenn Gould)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Dans Virgile, Alecto grimpe sur le toit de l'étable et chante (canit) dans la corne recourbée (cornu recurvo) le signal (signum) qui assemble les pasteurs. Virgile dit que ce son est une «voix infernale» (Tartaream vocem).
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Tous les agriculteurs accourent en armes. (Pascal Quignard, La Haine de la musique)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2005/08/06

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      That old cemetery behind my garden would be a suitable place. Everything there is beautiful with a beauty of exceeding and startling queerness; each tree and stone has been shaped by some old, old ideal which no longer exists in any living brain; even the shadows are not of this time and sun, but of a world forgotten, that never knew steam or electricity or magnetism or – kerosene oil! Also in the boom of the big bell there is a quaintness of tone which wakens feelings, so strangely far-away from all the nineteenth-century part of me, that the faint blind stirrings of them make me afraid, – deliciously afraid. (Lafcadio Hearn, Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/08/02

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          somewhere i have never travelled, gladly beyond
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          any experience,your eyes have their silence:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          in your most frail gesture are things which enclose me,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          or which i cannot touch because they are too near

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          your slightest look will easily unclose me
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          though i have closed myself as fingers,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          you open always petal by petal myself as Spring opens
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          (touching skilfully,mysteriously)her first rose

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          or if your wish be to close me, i and
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          my life will shut very beautifully ,suddenly,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          as when the heart of this flower imagines
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          the snow carefully everywhere descending;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          nothing which we are to perceive in this world equals
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          the power of your intense fragility:whose texture
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          compels me with the color of its countries,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          rendering death and forever with each breathing

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          (i do not know what it is about you that closes
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          and opens;only something in me understands
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          the voice of your eyes is deeper than all roses)
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          nobody,not even the rain,has such small hands (E. E. Cummings, Complete Poems 1904-1962)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2005/08/01

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Memorando X – Metafísico estáis. – Es que no como.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – ¿Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – Porque nunca se come, y se trabaja.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – Pues, ¿qué es de la cebada y de la paja?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – No me deja mi amo ni un bocado.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – Andá, señor, que estáis muy mal criado,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  pues vuestra lengua de asno al amo ultraja.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – Asno se es de la cuna a la mortaja.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  ¿Queréislo ver? Miraldo enamorado.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – ¿Es necedad amar? – No es gran prudencia.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – Metafísico estáis. – Es que no como.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  – Quejaos del escudero. – No es bastante.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  ¿Cómo me he de quejar en mi dolencia,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  si el amo y escudero o mayordomo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  son tan rocines como Rocinante? (Miguel de Cervantes, Diálogo entre Babieca y Rocinante)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Memorando IX – Ter por vida a sepultura. (Fernando Pessoa)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Vocabulário VI – Galope: a carreira mais rápida de alguns animais quadrúpedes; corrida veloz; espécie de dança a dois tempos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2005/07/29

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Observação II – Durante o abate das árvores do quintal que servem de esconderijo aos mais estranhos animais (a que jurei dar caça), encontrei um objecto ainda mais estranho, cuidadosamente encostado à parede de casa. Parecia uma bomba coberta de uma espécie de barro, do tamanho de uma garrafa de um litro. Considerando por uns segundos a história intermitente das terras polacas, resolvi questionar o vizinho, um de meia dúzia de almas num raio de quilómetros. Largo, sem um dedo (noto-o agora), fumando, esclareceu calmamente: "Ah, isso fui eu que deixei ali, para os miúdos não mexerem. Eu já perdi um dedo com uma dessas". E adianta: "Isto aqui é normal, mas não explode se a deixarem quieta". Deixei-a, é certo. Encontrou-a "do meu lado" e eu pensava então como mudar de lado, como mudar de terras; contava as horas para saber quando passaria o próximo autocarro para Varsóvia, mas não era sequer dia de tráfego na pequena estrada. Não faltou, claro, a observação: "Foram os malditos russos que deixaram isto cheio de bombas". Metade do país acha, com certeza, que foram os russos; a outra, que foram os alemães. Mas de uma coisa estou certo: foi o vizinho que a deixou ali, paredes meias com o fogão a lenha da cozinha, aceso todas as noites por causa do frio ou, não o imaginaria antes, por causa da morte. Para meu espanto, nada se disse sobre isso na mercearia da aldeia.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  eu vi
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  avermelhadas planícies
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  onde minúsculos animais fluorescentes semeiam olhos muito abertos
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  rasgando o confuso orvalho com as suas caudas peludas
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  enroscando-se no doloroso pulso (Al Berto, O Medo)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2005/07/28

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Memorando VIII – Toda a infelicidade dos homens tem por única origem não saberem ficar sossegadamente nos seus aposentos. (Pascal)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/07/19

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Observação I – Tempo para dedicação absoluta às manhas campesinas no ambiente manso da agra eslava. E porque os assuntos do campo devem ser tratados com cuidado e grandeza, eis uma lista de afazeres:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – estudar algumas partes da História Natural de Plínio-o-Velho;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – caçar todos os animais de pequeno porte;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – avançar no estudo do Tratado dos Animais de Condillac;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – adorar diariamente "a baba de ouro dos insectos";
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – discursar aos peixes, versando sobre a finura de bem cavalgar;*
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          – amansar as bestas de grande porte que se escondem nas imensas florestas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          * Não por influência do Padre António Vieira, mas por causa da notícia que dá conta da descoberta de piranhas num lago das redondezas. Mais cedo ou mais tarde, as artes de dominar as bestas serão bem achadas por aqui.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Before the ocean and the earth appeared –
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              before the skies had overspread them all –
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              the face of Nature in a vast expanse
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              was naught but Chaos uniformly waste.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              It was a rude and undeveloped mass,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              that nothing made except a ponderous weight;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              and all discordant elements confused,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              were there congested in a shapeless heap. (Ovídio, Metamorphoses)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Frangullas de pan,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  migallas de queijo,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  castañas mamotas
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  ou fruita do tempo

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  se compran na vila
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  por pouco diñeiro;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  ameixas e ostras,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  centolas, cangrejos,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e mais caramuxos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que compran por centos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  ou berberichiños
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que ten pouco prezo.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Alí os escochan
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  con mans ou con ferros,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  os chuchan ou comen
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  con muito sosego.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Por iso aquel chan
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  está sempre cheo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de cachos mariños,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  estando tan lejos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Na vila é costume,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  dempois que a coñezco,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  que os sábados todos
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  do ano e arreo

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  se faga un mercado
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  mercando e vendendo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  mil cousas do usso
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  con muito comerzo

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de olas, de potes,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de asados, pucheiros,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de pratos, cazolas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  picheles e petos,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  angazos e rodros,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  rebolos e eixos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de rocas, de fusos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de trouzos, sarelos,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de polas e polos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de lebres, coelhos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de pitas e ovos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de veces son frescos;

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  marrás, vacuriños,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  años e carneiros,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  capós e cabirtos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e todo a bon prezo;

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  pantrigos, petadas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  ripotes e queixos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  mel e manteiguiñas
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e fruitas do tempo;

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de liño, de estopa,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de mantas, mantelos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  de cintas, de faixas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  manguiñas, ourelos,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  navallas, fouciñas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  tixeiras, cuitelos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e vingueletiños
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  grandes e pequenos. (Padre Sarmiento, Coloquio de 24 Gallegos Rústicos)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2005/07/16

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      E Teofilo lhes disse: "Eu falei a Dorotea quando a levavam a degolar e disse-lhe em escárnio: 'Molher u te vás?' E ela me disse: 'Vou-me pera o meu amigo e meu esposo Jesu Cristo, que me convida pera mui sanctas vodas e mui solemnes manjares pera o seu paraiso.' E eu lhe disse como a sandia: 'Quando fores em esse paraiso, enria-me das rosas e das maçãs.' E ela me prometeu que o faria. E agora, tanto que foi degolada, veeo a mim üu menino que me parece que nom é mais de idade de quatro annos, e chamou-me a de parte e falou-me tam perfectamente, que a mim parecia seer eu rustico ante el e amostrou-me e deu-me este pano com estas tres rosas e tres maças e disse-me: 'Aquela virgem sancta Dorotea te enria esto, assi como o prometeu, estas doas do horto do seu esposo.'" (Horto do Esposo)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/07/15

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Adenda V (às três últimas entradas) – Elementos para uma iconografia dos sentidos, baseada no seguinte excerto:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          One may be satisfied that there are no senses apart from the five (I mean vision, hearing, smell, taste and touch).
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          [...]
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          The conclusion is that all the senses are possessed by all such animals as are neither undeveloped nor maimed; even the mole, we find, has eyes under the skin. If then there is no other body, and no property other than those which belong to the bodies of this world, there can be no sense perception omitted from our list. (Aristóteles, On the Soul)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Sébastien Stoskopff – Verão dos Cinco Sentidos


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Gérard de Lairesse – Alegoria dos Cinco Sentidos


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Lubin Baugin – Os Cinco Sentidos

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          A acção e a paixão também admitem a contrariedade e são passíveis dos graus maior e menor. Aquecer é o contrário de arrefecer, ser aquecido de ser arrefecido, alegrar-se de entristecer-se, o que é bem uma prova de admissão da contrariedade. O mesmo quanto ao mais e ao menos: pode aquecer-se mais ou menos, ou ser aquecido mais ou menos. A acção e a paixão são, por isso, susceptíveis de mais e menos. Eis o que temos a dizer destas categorias. (Aristóteles, Organon)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2005/07/14

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Sedia-m'eu na ermida de San Simión
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              e cercaron-mi as ondas, que grandes son.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Eu atendend'o meu amigo. E verrá?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Estando na ermida ant'o altar,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              cercaron-mi as ondas grandes do mar.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Eu atendend'o meu amigo. E verrá?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              E cercaron-mi as ondas, que grandes son:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              non hei i barqueiro, nen remador.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Eu atendend'o meu amigo. E verrá?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              E cercaron-mi as ondas do alto mar:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              non hei i barqueiro, nen sei remar.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Eu atendend'o meu amigo. E verrá?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Non hei i barqueiro, nen remador:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              morrerei eu fremosa no mar maior.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Eu atendend'o meu amigo. E verrá?

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Non hei i barqueiro, nen sei remar:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              morrerei fremosa no alto mar.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Eu atendend'o meu amigo. E verrá? (Meendinho, Sedia-m'eu na ermida de San Simión)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2005/07/13

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Memorando VII – Correi conduzindo os fios, correi, fusos. (Catulo)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      J'étais au repos. Première condition. D'abord le repos, pas un repos qui n'aurait été qu'une absence de mobilité et qui bientôt serait devenu somnolence et tout eût été perdu, mais un repos d'un degré au-delà, qui est abandon à la perte d'intervention. (Henri Michaux, Face à ce qui se dérobe)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Berlinde de Bruyckere – Nos Campos da Flandres

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Enquanto isso, agitando os seus corpos em débil movimento,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              as Parcas começaram a declarar cantos verídicos.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Dessas, rodeando o corpo trémulo por todos os lados, a veste
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              cândida com púrpura borda cingira os tornozelos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              fitas róseas na nívea cabeça residiam,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              e as mãos fiavam ritualmente um eterno labor:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              a esquerda retinha a roca envolvida por macia lã,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              a direita, então, conduzindo levemente, formava fios
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              com os dedos dobrados e, torcendo no polegar inclinado,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              o equilibrado fuso girava em cíclico turbilhão,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              de outro lado o dente, separando, igualava sempre o trabalho,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              e as lãs mordidas aderiam aos seus labiozinhos ressequidos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              as que antes estiveram proeminentes no leve fio.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ante seus pés, por outro lado, macios velos
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              de branca lã, os cestinhos de vime guardavam.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Elas então, com claríssona voz, impelindo os velos,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              tais fados verteram em divino carme,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              em um carme que, depois, nenhuma época acusará de perfídia. (Catulo, Carmina Maiora)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2005/07/12

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vocabulário V – Forca: instrumento para o suplício da estrangulação; patíbulo; cadafalso; forquilha.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Memorando VI – Estranho é o sono que não te devolve. (Daniel Faria)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/07/11

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          A Pisanello

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Perfil da gelosia no horizonte
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          tal como arcos na Anunciação.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          A Graça necessária para aquietar
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          a amargura que canta soluços.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          O lírio, ao rés da terra.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          No chão ajardinado, as pedras lisas.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          E o Equânime, arcanjo do anúncio. (Fiama Hasse Pais Brandão, Entre os Âmagos)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Pisanello – Estudos de Homem Enforcado

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  If a man buys his horses well, trains them so that they can stand work, and uses them properly in the training for war, in the exhibition rides and on the battle-fields, what is there then to hinder him from making horses more valuable than they are when he takes them over, and why should he not be the owner of famous horses, and also become famous himself for his horsemanship, provided no divine power prevents? (Xenofonte, On the Art of Horsemanship)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Strike, strike the villain, who has spread confusion amongst the ranks of the Knights, this public robber, this yawning gulf of plunder, this devouring Charybdis, this villain, this villain, this villain! I cannot say the word too often, for he is a villain a thousand times a day. Come, strike, drive, hurl him over and crush him to pieces; hate him as we hate him; stun him with your blows and your shouts. And beware lest he escape you; he knows the way Eucrates took straight to a bran sack for concealment. (Aristófanes, Knights)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          When a man has found a horse to his mind, bought him and taken him home, it is well to have the stable so situated with respect to the house that his master can see him very often; and it is a good plan to have the stall so contrived that it will be as difficult to steal the horse's fodderout of the manger as the master's victuals from the larder. He who neglects this seems to me to neglect himself; for it is plain that in danger the master entrusts his life to his horse. (Xenofonte, On the Art of Horsemanship)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2005/07/10

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Que dias há que na alma me tem posto
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              um não sei quê, que nasce não sei onde,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              vem não sei como e dói não sei porquê. (Luís de Camões, Busque Amor novas artes, novo engenho)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Memorando V – Num papel rasgado que serve de marcador de um livro, está a morada do Movimento de Divulgação do Espiritismo Cristão, em Ponta Delgada: fica no Largo do Bom Despacho. Haverá nome mais conveniente? O papel marca uma página com o seguinte poema:

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  All those sleep shapes, crystalline,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  that you assumed
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  in the language-shadow,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  to those
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  I lead my blood,

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  those image lines, them
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  I'm to harbour
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  in the slit-arteries of my cognition –
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  my grief, I can see
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  is deserting to you. (Paul Celan, Poems of Paul Celan)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Se nos prados daqui
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      eu nunca mais for vista nem achada,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      direis que me perdi,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      que, andando enamorada,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      por perdida me dei, e fui ganhada. (S. João da Cruz, Cântico Espiritual)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/07/07


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Francisco de Goya – Natureza-morta (a Banca de um Açougueiro)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              2005/07/06

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Come occhi di pecora immolate,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Veniva gonfio di pietà umane
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Lungo bramito, un animale offeso. (Guido Ceronetti, La Distanza; enviado por ΣΔ)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Adenda IV (à última entrada) – Continuação da colecta de elementos para a classificação dos usos e das capacidades das bestas (consultar Adenda II).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Arrasado el jardín, profanados los cálices y las aras, entraron a caballo los hunos en la biblioteca monástica y rompieron los libros incomprensibles y los vituperaron y los quemaron, acaso temerosos de que las letras encubrieran blasfemias contra su dios, que era una cimitarra de hierro. (Jorge Luis Borges, El Aleph)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/07/05

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando IV – O Abjeccionismo é a mais apurada das teorias, não lhe faltando nada nem lhe cabendo qualquer coisa mais. O seu início tem a medida da sua perfeição: o texto que explicava o que era perdeu-se para nunca mais ser achado, sendo a resignação do autor esclarecedora quanto à relevância deste acaso. O que tem que ser tem muita força. Restam apenas pequenas indicações, pequenas lembranças do que foi dito, aqui ou ali, pelo autor. Normal seria que, morto este, e nestas circunstâncias, morresse a teoria. Pelo contrário, foi preciso que o autor morresse para que, de uma vez por todas, o Abjeccionismo se instalasse. De outro modo, poderia o autor desacertar e dizer alguma coisa nova que, no caso de tão primorosa teoria, não ajudaria senão a desmembrá-la. A carne é fraca, di-lo toda a gente, pelo que a morte do autor trouxe substância à teoria. Há quem afirme, não sem que a voz lhe trema, que o Abjeccionismo é o Surrealismo português. Mas esta é uma afirmação decididamente injusta: o Surrealismo tem obra e o Abjeccionismo não pode, por natureza, tê-la. Por natureza? Melhor: por não ter natureza. É porque nunca foi que a mais apurada das teorias não pode ter obra. Obra feita tem Deus, têm os artistas, têm os mestres-de-obras e os pais de filhos. O Abjeccionismo – tal como os deuses, as epidemias ou as térmitas – tem obra desfeita.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Saibam os Nove Firmamentos que o Deus
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              É perecível como a Cortiça e o Lodo. (Jorge Luis Borges, Ficções)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  2005/07/04


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Hans Baldung Grien – O Cavalariço Enfeitiçado

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Adenda III (à última entrada) – Elementos para a caracterização das propriedades intelectuais que permitam a selecção do cavalo perfeito.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Enumeração, segundo Bole:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – perceber o subtil;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – esquecer o superficial;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – cuidar do que é de dentro;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – não olhar para o que não merece ser olhado;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – observar o que merece ser observado;
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      – negligenciar o que não merece ser observado.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Duque Mu do Sin: "Sois idoso, um dos vossos poderia arranjar-me cavalos?"

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Bole: "Um bom cavalo reconhece-se pelo corpo, nervos, músculos e ossos. O melhor cavalo do império é inapreensível, escapa das investidas. Não levanta poeira, não deixa pegadas atrás de si. Os meus filhos não poderiam encontrá-lo. Podemos dizer-lhe o que é um bom cavalo, mas não o que é o cavalo perfeito. O vosso servidor transportou lenha para o fogo e legumes com Jiu Fanggao, que não me é inferior como conhecedor de cavalos. Tende a bondade de o convocar."

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          O duque de Mu mandou vir o homem e encarregou-o de arranjar-lhe um cavalo. Voltou três meses depois e disse: "Achei um, no Shaqiu."

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Duque Mu do Sin: "Como é ele?"

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Jiu Fanggao: "É uma égua amarela."

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Mandou-se um homem procurá-la: era um garanhão preto! Descontente, o duque chamou Bole e disse-lhe: "Aquele que dissestes que me arranjaria um cavalo é péssimo. Não sabe sequer distinguir o seu sexo ou a sua cor. Que poderia saber de cavalos?"

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Bole (depois de um suspiro e de uma pausa): "Então, ele chegou a esse ponto! Nenhum dos vossos súbditos se compararia a ele. O que Jiu Fanggao percebe são os mínimos da natureza. Percebe o subtil, esquece o superficial. Cuida do que é de dentro, não olha para o que julga não merecer, observa o que julga merecer, negligencia o que entende não merecer ser observado. O cavalo proposto por Jiu é necessariamente o mais nobre dos cavalos."

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Trouxeram o cavalo, que realmente foi o melhor cavalo do império. (Lie Tse, Tratado do Vazio Perfeito)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Vocabulário IV – Eguariço: relativo a éguas; muar que procede de égua e burro; aquele que trata de éguas ou cavalos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Enfant trouvé dans les forêts de Lithuanie

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Tel étoit vraisemblablemet le sort d'un enfant d'environ dix ans, qui vivoit parmi les ours, et qu'on trouva, en 1694, dans les forêts que confinent la Lithuanie et la Russie. Il ne donnoit aucune marque de raison, marchoit sur ses pieds et sur les ses mains, n'avoit aucun langage, et formoit des sons qui ne ressembloient en rien à ceux d'un homme. Il fut longtemps avant de pouvoir proférer quelques paroles, encore le fit-il d'une manière bien barbare. (Étienne Bonnot de Condillac, Traité des Sensations)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2005/07/03

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      E se non puoi la vita che desideri
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      cerca almeno questo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      per quanto sta in te: non sciuparla
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      nel troppo commercio con la gente
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      con troppe parole in un viavai frenetico.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Non sciuparla portandola in giro
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      In balìa del quotidiano
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Gioco balordo degli incontri
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      E degli inviti,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      fino a farne una stucchevole estranea. (Constantinos Kavafis, Settantacinque poesie)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/07/02

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando III – A carne que os guindastes suspendem. (Luís Miguel Nava)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Piotr Potworowski – Ruela em Espanha

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Virgínia

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Embora o sol fosse alto ainda, àquela hora
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  já dali desertara, as sombras iam
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  saindo aos poucos de debaixo dos armários.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  De vez em quando as mãos, completamente absortas,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  do gigo agora esvaziado e dos pesados
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  contornos recortados contra a luz.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  corria atrás das pombas, oscilava
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  e os montes pareciam pendurados. (Luís Miguel Nava, O Céu sob as Entranhas)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Epístola para Dédalo

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos. (Fiama Hasse Pais Brandão, Epístolas e Memorandos)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/07/01

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          O mar estava sem espuma, liso, extremamente brilhante, resplandecente. Cada onda era como uma grande telha de ouro que se erguia, que avançava. (Pascal Quignard, As Sombras Errantes)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Mestre da Vida da Virgem – Cristo na Cruz

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Adenda II (às duas últimas entradas) – Elementos para a classificação dos usos e das capacidades das bestas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      C'est Dieu qui a créé pour vous les bestiaux; les uns vous servent de montures, et vous mangez la chair des autres.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Vous en retirez de nombreux avantages; au moyen d'eux, vous satisfaites aux désires de vos coeurs. Ils vous servent de montures, et vous êtes portés aussi par les vaisseaux. (Alcorão, XL:79-80)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Or il n'y a que fort peu de commerce d'idées parmi les bêtes, même parmi celles qui forment une espèce de société. Chacune est donc bornée à sa seule expérience. Dans l'impuissance de se communiquer leurs découvertes et leurs méprises particullières, elles recommencent à chaque génération les mêmes études, elles s'arrêtent après avoir refait les mêmes progrès, le corps de leur société est dans la même ignorance que chaque individu, et leurs opérations offrent toujours les mêmes résultats. (Étienne Bonnot de Condillac, Traité des Animaux).


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Lucian Freud – Rapariga de Olhos Fechados

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Vocabulário III – Boleeiro: cocheiro que monta a besta de sela nas carruagens de boleia.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      According to thy word.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      They shall praise Thee and suffer in every generation
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      With glory and derision,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Light upon light, mounting the saints' stair.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Nor for me the martyrdom, the ecstasy of thought and prayer,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Not for me the ultimate vision.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Grant me thy peace.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      (And a sword shall pierce thy heart,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Thine also.) (T. S. Eliot, A Song for Simeon)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Vocabulário II – Virote: seta curta, forte e grossa; haste quadrada que era a principal peça da balestilha; travessa de ferro, nos copos das antigas espadas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Je te salue, pleine de grâce.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              (...)
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              La grâce qui emplit le corps avant qu'il ne se remplisse de verbe équivaut à la beauté, dit la gratuité. Le don ne correspond à aucune obligation: le donateur ne le doit, au receveur il n'est pas dû. Il pourrit se nommer le donné. Je te salue, corps plein de données gratuites, reçues par lui comme dons du monde. Ce qui entre par les sens ou dans le corps par eux ne se paie ni en argent ni en énergie ou information, en monnaie d'aucune sorte, ainsi nous nous accordons à le nommer donné. Je te salue, chair pleine de ces dons. (Michel Serres, Les cinq sens)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Fra Angelico – Anjo (pormenor)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      2005/06/30

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Ho visto la luna più chiara di sempre
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      alzarsi dietro il monte
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      e non ho fatto niente.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Non ho parlato né pensato
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      e qualcosa ho sentito,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      ma non avrei voluto.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Ho sentito di voler combattere il sentire,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      di non volere la luna per me
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      e di non darmi alla luna,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      ma di fissare un'altra luce
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      radicata dalla terra al cielo e in me rinata
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      e generata dalla luna. (Stefano Dal Bianco, Altra Luna)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Memorando II – A baba de ouro dos insectos.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Glória de ter o espaldar recortado
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              da talha dourada do sol!
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              A graça e o hino. O adejar
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              das mãos ressequidas
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              que entrelaçam inverosímeis teias.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Faiscar de fios que são tão puros
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              como a baba de ouro dos insectos. (Fiama Hasse Pais Brandão, Cenas Vivas)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Adenda I (às duas últimas entradas) – Elementos para a caracterização do Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela, de D. Duarte, como um Tratado de Declamação Poética.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      O cavalo que transporta o poeta é, segundo uma antiga tradição exegética do Apocalipse de S. João, o elemento sonoro e vocal da linguagem. Comentando o Apocalipse 19:11, onde se descreve o logos como um cavaleiro "fiel e veraz" que monta um cavalo branco, Orígenes explica que o cavalo é a voz, a palavra como enunciado sonoro, que "corre com mais energia e velocidade que qualquer ginete" e que só o logos torna inteligível e clara. É sobre um tal cavalo que, adormecido – durmen sus un chivau –, nas origens da poesia novilatina, Guilherme de Aquitânia declara ter composto o seu vers; e há um certo indício do tenaz simbolismo desta imagem, quando, no princípio do século, na obra de Pascoli (e, mais tarde, em Penna e em Delfini), o cavalo toma a forma mais descontraída de uma bicicleta. (Giorgio Agamben, Ideia da Prosa)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Io vado verso il fiume su un cavallo
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          che quando io penso un poco un poco egli si ferma. (Sandro Penna, Tutte le poesie)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Jean-Baptiste Siméon Chardin – Sala de Fumo

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Memorando I – O Vístula não tem margens. Não sei se as terá fora dos muros varsovianos, mas aqui seguramente não as tem. A cidade tem rio, é certo, há pontes e tudo, há mesmo o lado de cá do rio (a Cidade Velha, por exemplo) e o lado de lá (a cidade envelhecida). Mas isso não lhe levanta beiras.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Cobre-se o céu de grossas negras nuvens,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Os ventos mais e mais cada hora crescem,
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Já se escurece o céu, já. Com soberba
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Inchadas grossas ondas se levantam. (Jerónimo Corte Real, Naufrágio de Sepúlveda)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Vocabulário I – Cavalgadura: besta cavalar, muar ou asinina, que se pode cavalgar.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Adágio I – Por cima do leite, nada se deite.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  L'impénétrabilité est une propriété de tous les corps; plusieurs ne sauroient occuper le même lieu: chacun exclut tout les autres du lieu qu'il occupe. (Étienne Bonnot de Condillac, Traité des Sensations)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Martin Drölling – Interior de Cozinha

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/06/29

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu leito, um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível. (Mário Cesariny, Pena Capital)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Num ermo, morava um virtuoso ermitão ao qual se chegou um salteador de caminhos, dizendo-lhe:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Vós rogais a Deus por todos. Rogai-lhe que me tire deste ofício que trago, senão hei-de matar-vos.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              E, ido dali, tornava a fazer o mesmo que dantes. E outra vez tornava ao padre, dizendo:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Vós não quereis rogar a Deus por mim. Pois hei-de matar-vos.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Tantas vezes fez isto, que uma veio determinado para matar o padre, o qual lhe pediu e disse:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Já que me queres matar, tiremos primeiro ambos uma laje que tenho sobre a minha sepultura e, morto, lançar-me-ás dentro sem muito trabalho.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Ele o aceitou e, assim, foram ambos a erguer a laje. Porém, como o salteador trabalhava quanto podia por erguê-la, assim trabalhava o padre ermitão por que não se erguesse e, dessa maneira, ambos não faziam mudança da laje. Atentou o salteador no caso e disse assim:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – E se vós não ajudais, como posso eu erguê-la? Que ainda que eu erga da minha parte, vós fazeis da vossa com que não aproveite o que faço.
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Antes que passasse adiante, lhe disse o padre ermitão:
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              – Vês aí, irmão, o que eu te digo? Que me presta, a mim, rogar a Deus por ti, pedindo-lhe que te tire do pecado e mau ofício que trazes, se tu não te queres tirar e estás muito de propósito perseverando nele? (Gonçalo Fernandes Trancoso, Contos e Histórias de Proveito e Exemplo)


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Sébastien Stoskopff – Cesto com Copos

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      Menina e moça me levaram de casa de minha mãi para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que despois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha. (Bernardim Ribeiro, Menina e Moça)

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          2005/06/28

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          Esta é a casa do Senhor Deus, firmemente edificada. Boa cousa é que moremos aqui! (Bosco Deleitoso)