Pero el niño se hizo mozo
y el mozo tuvo un amor
y a su amada le decía:
¿tú eres de verdad o no?
Cuando el mozo se hizo viejo
pensaba: todo es soñar,
el caballito soñado
y el caballo de verdad. (Antonio Machado, Parábolas)
Pero el niño se hizo mozo
Takiś swawolny czy takiś szalony? Bo słyszę, że kochasz się w lutnistce i niszcząc się składasz jej całodzienny zarobek za połów. Opowiedział mi bowiem o tym najlepszy z sąsiadów, Sozjasz, ten sam, który gotuje wspaniały i słodki sos z młodych rybek chwytanych przez siebie w sieć. A należy on do tych, co szanują prawdę, jak należy, i nie posunąłby się do kłamstwa. Skąd więc, powiedz mi, znasz się na rodzaju muzyki diatonicznym, chromatycznym i enharmonicznym? Zarówno bowiem jesteś wzięty młodzieńczą urodą dziewczyny, jak i jej grą. Tak mi w opowiadaniu oznajmił Sozjasz. Przestań wyrzucać na to swoje pieniądze, aby cię zamiast morza ziemia ogołociwszy z majątku nie uczyniła rozbitkiem, a dom lutnistki nie stał się Zatoką Kalydońska albo Morzem Tyrreńskim, śpiewaczka zaś Scyllą; a ty nie masz do wezwania Kratais, matki Scylli, jeśli po raz wtóry rzuci się Scylla na ciebie. (Alkifron, Listy heter)
He told to M. Hutchinson a very true story of a gentleman who not long before had come for some time to lodge in Richmond, and found all the people he came in company with, bewailing the death of a gentle woman that had lived there. Hearing her so much deplored he made inquiry after her, and grew so in love with the description, that no other discourse could at first please him, nor could he at last endure any other; he grew desperately melancholy, and would go to a mount where the print of her foot was cut, and lie there pining and kissing of it all the day long, till at lenght death in some months space concluded his languishment. This story was very true. (Stendhal, On Love)
Verrà la morte e avrà i tuoi occhi,
Orlando Mortificado I
Then the Spirit came into me and raised me to my feet. He spoke to me and said: Go, shut yourself inside your house. (Ezekiel, 3:24)
Vocabulário XV – Martirológio: lista dos mártires, com a descrição dos seus tormentos e as datas das suas mortes.
Excepção II
Souvent je m'éveille à moi-même en m'échappant de mon corps; étranger à tout autre chose, dans l'intimité de moi-même, je vois une beauté aussi merveilleuse que possible. (Plotin, Ennéades)
Excepção I
Pastorela II
La mort le fait fremir, pallir
Pastorela I
Deus não possui um corpo provido de uma cabeça humana; não tem um tronco de onde partem, como dois ramos, dois braços; não tem pés, nem joelhos ágeis, nem um membro viril coberto de pêlos. (Empédocles)
Concílio dos Cem Capítulos, Stoglav, Moscovo, 1551
Na ordem das plantas menos aromáticas, matéria
Estendi-me num parque varsoviano e admirei o cruzamento constante dos pássaros, voando entre as copas das árvores, tendo imaginado que faziam uma malha viva nos céus. E fechei os olhos para melhor sentir, quietas e suspensas, todas as aves que cruzaram aquelas mesmas copas. A aerologia possível, num dia melancólico.
Não deixes passar sem espanto, cavaleiro desavisado, o que tão altas e finas donzelas escrevem, fazendo menção do teu pobre livro de virotes, virações e gongorismos avulsos. Pois que seria do teu fraseado, infeliz alma danada, sem que tão belos olhos lhe pusessem a vista em cima? Valoriza o desvelo com que tais senhorias te prendam, prostrando-te agradecida e delicadamente.
Interior é um comparativo para tudo o que é interno. Íntimo é o superlativo.
I
(...) Farewell, happy fields,
Passamento VII
Memorando XXIV – E sobre o duro ferro penetrante / Arroja o tenro, cristalino peito... (Correia Garção)
Com a convulsa mão súbito arranca
III
II
Adenda XII (às duas últimas entradas) – De como a pintura de Correggio quer dizer a frase de Thomas Mann e vice-versa.
Is it not well done that our language has but one word for all kinds of love, from the holiest to the most lustfully fleshly? All ambiguity is therein resolved: love cannot but be physical, at its furthest stretch of holiness; it cannot be impious, in its utterest fleshliness. (Thomas Mann, The Magic Mountain)
I
Passamento VI
Passamento V
"Aqui é a porta dos céus", podia (e pode) ler-se numa inscrição colocada à entrada de uma igreja católica, em Varsóvia. A manhã ia a meio e o autocarro tardava. E assim, à porta do templo, como quem não quer a coisa, a explicação do catolicismo: "Aqui é a porta dos céus." Nunca mais admirarei uma "Missa pro defunctis" ou uma Anunciação sem repetir, assim como quem prega: "Aqui é a porta dos céus", que cada obra deste género é um hipetro.
Passamento IV
Labiologia XI – Ler aqui uma breve nota biográfica sobre o "dócil e bom, económico e esclarecido" D. Duarte, patrono deste sítio.
Condescendo: a explosão de luz que percebo do lado de lá dos estores incendiar-me-á o corpo como quem esmaga a escuridão.
Adenda XI (à última entrada) – Da influência do pensamento estratégico chinês nas doutrinas fundamentais do cristianismo.
The exercise of kindness in battle leads to victory, the exercise of kindness in defense leads to security. (Sun Tzu, The Art of War)
A respeito do discurso de um sábio sobre as virtudes do sono, Zaratustra afirma o seguinte:

Adenda X (à última entrada) – Onde se lê "amanhecendo", pode ler-se "anoitecendo" ou mesmo "adormecendo", mas nunca "acordando". Esta indicação, como é evidente, não depende da hora do dia.
Amanhecendo com as gostosas palavras de Lévinas: "passividade mais passiva que toda a passividade".
E os dedos de Tomé nas chagas de Jesus, ave-marias que não se chegam a rezar (porque rezá-las é caso de inocência, quando não mau gosto), quadros poeirentos esquecidos nas sacristias, concupiscência (porque não há quem a lembre tantas vezes), estigmas, estigmas, estigmas, os cabelos de Maria Madalena, retábulos, cálices, o "Evangelho segundo Mateus" de Pasolini, sinos, epitáfios e por aí adiante. A propósito da boniteza do catolicismo (e ainda aqui).
Senhora partem tam tristes
Mas eu, jovem infeliz, infeliz desde o princípio da adolescência, roguei-vos por castidade e disse: Dai-me castidade e continência, mas não agora. Temia que atendêsseis ao meu pedido de imediato, sanando-me da concupiscência quando eu a queria mais saciada do que curada. (Agostinho, Confissões)
Passamento III
Abro comentários para que os possa encerrar dentro de pouco tempo, assim que passem quatro ou cinco dias sem que se escreva uma única palavra. Como o patinho feio da escola que diz à moça mais bonita das redondezas (o que vale pelo mundo) que a ama perdidamente, para poder acabar com o caso e com a paixão logo ali, que a resposta já a conhecia desde o dia em que tinha posto os olhos nela.
Insiste-se muito num ensino com qualidade da literatura. E ainda bem que é assim. No entanto, como escrevi, parece-me que se esquece quase toda a literatura do mundo. Mas também se esquece outra coisa: por que razão se insiste tanto na língua, deixando de lado tudo o resto? Sentamo-nos na sala de aulas para ler versos, e ainda bem que assim é, mas será que alguém se senta na escola para ouvir música? Ou não se aprenderá a apreciar música? Que vale mais: uma estrofe de Camões ou o cravo bem temperado de Bach? Na ordem do ensino das belas coisas, a literatura não passa de um coto, que continua colado ao corpo porque se insiste em resumir o pensamento à língua. Enquanto deixarmos de lado tantas outras coisas (o bailado, o cinema, o desenho, etc.), o ensino das tais belas coisas não passará de um corpo amputado.
Pode dizer-se que um aluno conhece literatura, quando aprende exclusivamente a portuguesa? Ensina-se a nossa literatura como se não houvesse mais nenhuma. Melhor: como se os grandes clássicos estrangeiros não passassem de influências à literatura portuguesa. Homero? Aquele cuja obra influenciou Camões. Que obra? Aquela que influenciou Camões.
E lamentações, evangelhos, o Demo, o Demo, o Demo, espécies, "agnus Dei", visitações, a Santíssima Trindade, as "Fiori musicali" de Frescobaldi, vitrais, vitrais, vitrais e por aí adiante. A propósito da boniteza do catolicismo.
Vocabulário XIV – Arúspice: sacerdote romano que predizia o futuro pelo exame das vísceras das vítimas oferecidas em sacrifício aos deuses.
Passamento II
Enquanto espero que me falhe o coração, começarei uma série intitulada Passamento, que incluirá flores, anjos e outras miudezas. Há quem compre o seu próprio caixão, há quem prepare a fatiota a usar durante a eternidade (isto se forem de bom tecido, o fato e o corpo), há quem escreva testamento e há quem procure redimir-se das maleitas que provocou. A mim, deu-me para isto. A talho de foice (e que bem fica esta locução aqui), as palavras de Mário Cesariny: "Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu leito..."
Adenda IX (às duas últimas entradas) – Elementos para a compreensão das capacidades de transmudação dos cavaleiros, que diante de uma donzela a deixam enamoradíssima e, diante de um qualquer sujeito, provocam os mais terríveis medos, pois é a espada da justiça que se desembainha. Ou não.
Nunca fora cavaleiro
The well-known Australian explorer, Mr. Stuart, has given a striking account of stupefied amazement together with terror in a native who had never before seen a man on horseback. Mr. Stuart approached unseen and called to him from a little distance. "He turned round and saw me. What he imagined I was I do not know; but a finer picture of fear and astonishment I never saw. He stood incapable of moving a limb, riveted to the spot, mouth open and eyes staring. (Charles Darwin, Expression of the emotions in man and animals)
The heart, which goes on uninterruptedly beating night and day in so wonderful a manner, is extremely sensitive to external stimultants. (Charles Darwin, Expression of the emotions in man and animals)
Labiologia X – De Mário Cesariny, e dito pelo próprio, "nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar", a ouvir aqui (Welcome to Elsinore).
E a voz que eu, do céu, tinha ouvido, tornou a falar comigo, e disse: Vai, e toma o livrinho aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra.

Dou por certo que o catolicismo é das coisas mais bonitas do Mundo. Bonito, precisamente. O catolicismo é bonito porquanto é feito de cerimónias e de nada mais. O catolicismo não é o exército de adoentados que enchem as salas de espera dos centros de saúde, nem tão-pouco a juventude que, jovemmente, canta cantigas e entoa toadas de adoração a Nossa Senhora. Isto não passa de um cristianismo de baixo nível, mesquinho, de quem nunca leu as epístolas de Paulo, quando não é um clericalismo obediente praticado por bem-te-vis. O catolicismo é a Igreja, e não está em todas as igrejas (já se Deus está, não interessa a ninguém). Claro que a Igreja tem uma vertente odiosa, que outra palavra não há, a saber: o lado político, que não permite o uso do preservativo ou que admite, por exemplo na Polónia, que se proíba o consumo do álcool ou a publicidade a pensos higiénicos nos dias de visita papal. Isto só acontece porque o clero é uma horda ("bando indisciplinado que se entrega a devastação e assaltos") de humanos. Fossem divinizados, como um qualquer concílio poderia fazer, e não haveria impropérios destes. Aliás, se o próprio Sumo Pontífice pode salvar as crianças do limbo, bem pode divinizar um amontoado de clérigos. O que faz o catolicismo é uma série de coisas antigas: missas, Impropérios (de outra ordem), o pão e o vinho, a carne e o sangue, pinturas, pinturas, pinturas, latim, latim, latim, "sursum corda", talha dourada, sacramentos, consubstanciações, Eucaristia, "hoc est enim corpus meum", gótico, barroco, cerimónias funerárias, "requiem", incensos, anunciações, conventos, cravações, unguentos, "noli me tangere", ressurreição, ascensões, martírios, crucificações e por aí adiante. Há mais catolicismo numa imagem de Fra Angelico que na ideia de Deus.
Memorando XXIII – Árvores de um verde inefável. Tão imponentes e amorfas que poderiam confundir-se com nuvens. (Frederico Lourenço)
Que poeta não o dirá, vossa senhoria, que filósofo não o afirmará, que quem tem encarcerado o coração não pode senão ter a alma reclusa, fechada a sete chaves, enterrada na região mais remota do Inferno? Tendes-me num calabouço, que outra coisa a minha vida não tem sido sem vossemecê, e é à mercê de vossos humores que os meus dias se tornam em noite, e em dia as noites. Faço uso da prosa, se prosa se chama a tão lacrimosa macedónia, mas avisa-me a mágoa que vós não lereis estes meus lamentos copiosos. Se os lerdes, peço-vos, respondei-me, e dai-me sinais, para que me sirvam de consolo ou, queira Deus, de salvação.
The last day had come. Doomsday was at hand. The stars of heaven were falling upon the earth like the figs cast by the figtree which the wind has shaken. The sun, the great luminary of the universe, had become as sackcloth of hair. The moon was bloodred. The firmament was as a scroll rolled away. (James Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man)
Vocabulário XIII – Novíssimos: os últimos destinos do homem, segundo a doutrina católica (Morte, Juízo, Inferno e Paraíso).
Le persone serie sono prima di tutto immorali...
Leio "a baba de ouro dos insectos", tanjo-a
Don't you like the sight of a coffin? I really do. I find it a handsome piece of furniture, even empty; when someone is lying in it, then, in my eyes, it is positively sublime. Funerals have something very edifying; I always think one ought to go to a funeral instead of to church when one feels the need of being uplifted. People have on good black clothes, and they take off their hats and look at the coffin, and behave serious and reverent, and nobody dares to make a bad joke, the way they do in ordinary life. (Thomas Mann, The Magic Mountain)
Labiologia (epítome): Lugar Comum.
Labiologia VIII – As artes da guerra e do amor, nos dias 12 e 13 de Junho de 1940, dias felizes.
Condescendo: desaparecesse o cerrado nevoeiro e, com ele, esfumar-se-iam todos os sons da cidade, que lhe pertencem numa manhã de nuvens como os pássaros ao voo.
Erguei-vos, cavaleiro madraço, que vos chega demanda de vosso amo! Servi-o como quem serve o rei do maior dos reinos! Encomendai-vos ao Senhor e à vossa senhora para que vos saia resposta atinada, que não há maior louvor que um quesito de tal importância! Olhai bem, ó cavaleiro valoroso, ainda que falho em sucessos, que vos pedem tradução do catecismo!
Tivesse esta pobre alma outro ofício que não o da digníssima cavalaria andante, consolo de desamparados, e já se teria apercebido do aniversário do graciosíssimo Bombyx Mori. Oh, gratidão, que te apartas quando de ti mais há necessidade! Contasse os dias nas luas, como se contam as desgraças que amiúde sucedem a quem faz uso das armas para enfrentar as caraminholas do Demo (e de cabelos não falo), e não me teria escapado tão honrada data. Possa este valoroso braço favorecê-lo, e dê como comprovada a fidelidade deste seu servo a vossa senhoria.
Meia noite, meia noite,
Grandes eram meus vagares, a passo por minhas fazendas, quando vossa trova mancebo ma trouxe. Logo me pus em grandes cuidados, pois com deveras ânsias espero vossas benquerenças. Da prosa faço usança, por frouxo manejo do verso e por de verbo não ser bem servido, coisa que vos é claro de ver. Mas, já vo-lo digo, que se com tais versos pastora sois, bem provido de letrados se acha vosso reino! Não vos quero enfadar com minha prosa, mas do coração vos digo, que é de amores que me levais! Mas, para que lugar me levais, senhora? Para o vosso dócil regaço, ou para a solidão do desamparo? Que temores antevejo, em que tebaida me pondes!
Condescendo: levante-se o denso nevoeiro, que se confunde com os alvíssimos montes de neve, e levantar-se-á toda a cidade com ele.
Saliéronse los dos a sestear en un portal o cobertizo que delante de la venta se hace, y sentándose frontero el uno del otro, el que parecía de más edad dijo al más pequeño:
Broke the deep slumber in my brain a crash
Memorando XXII – Quando meu coração parar desfeito / Em sombra, na profunda sepultura... (Teixeira de Pascoais)
Não é preciso ver uma caricatura da Virgem Maria num prostíbulo, todas as semanas, para saber que há liberdade de expressão. Seria um exercício pueril. A liberdade de expressão perde todo o sentido na auto-referência, isto é, quando o único conteúdo de um discurso é afirmar a própria liberdade desse mesmo discurso. Foi esse o erro dos jornais, blogues e afins que insistiram na publicação das caricaturas de Maomé até à exaustão.
Donzela de ermo monte, recebei meus louvores, minhas honrarias e minha epístola, que vo-la escrevo por extenso por bons versos me faltarem.
– Há duas coisas de grande beleza e perfeição, o Universo e o Homem.
Le peintre Zeuxis avait pris la décision de donner ses oeuvres parce que, selon ses dires, elles ne pouvaient être achetées à quelque prix que ce fût. Il pensait en effet qu'aucun prix n'aurait pu être fixé qui fût susceptible de satisfaire celui qui, en façonnant ou en peignant des êtres animés, se distinguait presque comme un autre dieu parmi les mortels. (Leon Battista Alberti, La Peinture, II)
Vossos estares não os peço, quereríeis vós,
Condescendo: pusesse a mão sobre o finíssimo gelo e em cada poro se cristalizaria o sangue que, sôfrego, busca saída.
Quisésseis vós meu jeito,
Ledo era antes de vos ver,
Num enigmático artigo de Eduardo Prado Coelho (no Público, reproduzido aqui) há uma frase verdadeiramente insondável, a propósito da sua consideração de que o sagrado está "acima de tudo o mais", não devendo, portanto, ser objecto de caricaturas. Ei-la:
All at once they saw by the stream a stranger sitting and weeping.
busca senhor tal insosso monteiro
Anúncio (é favor responder*)
Condescendo: há rebentos que rompem a neve para se acomodarem sob a luz solar, como se rompessem duas terras.
Adenda VIII (à última entrada) – Elementos para a caracterização do que quer que seja com base no último parágrafo de algumas obras fundamentais (consultar Adenda VI).
Les Hommes
Não se sabe o que o último rei dos Romanos queria dizer ao morrer.
Memorando XXI – Se eu alguma vez chegasse a conseguir dizer apenas as sílabas exactas que fundissem a ideia e a coisa numa aguda cintilação discreta... (Susana Bês)
Condescendo: há no vidro cristais de gelo que estão mais vivos que todas as outras flores do Mundo, e junto-lhes o calor do corpo para que melhor surdam na pele.
Os Fogos
You have never been in love,
Labiologia VIII – Das manhas de bem açoitar as crianças, a ler aqui. Ou da contribuição de uma serrana nova e bonita para os preceitos da pedonomia.
Condescendo: há rios que correm sob as enormes camadas de gelo, a água-queda sobre a água. Assim o sangue sob a pele, sangue-quedo.
O you whom I often and silently come where you are that I may be with you,
A Vida Áurea
Epístola III
Uma das vidraças de que falava anteriormente caiu mesmo à minha frente. É desses escassos centímetros que nos separaram que me ergo para mais umas horas, mais uns dias.
Há bons e maus críticos. Eu medirei o quanto vale para mim uma crítica de alguém quando me deparar com a obra, isto é, quando perceber se o que o crítico escreveu faz ou não faz sentido. Ora, se percebo que o crítico estava a prestar serviços pessoais (seja por questões de amizade, de influência ou de qualquer outra coisa), estou no bendito direito de deixar de ler as suas críticas ou, se me apraz tal tipo de exercício, de continuar a lê-las descansadamente. Há muita imprensa e, logo, muitos críticos. Que alguns façam do seu emprego um palanque para anunciar a grandeza dos amigos, é lá com eles. Eu, por mim, não lerei as suas críticas. Mas há quem as leia e aprecie, e isso é com cada um.
A temperatura subiu e, com ela, subiram os imensos pássaros de Inverno. Nos telhados, porém, esperam vidraças de gelo, ameaçadoramente cortantes. Esperam que passe alguém para abrirem em sangue, como quem rasga um naco de carne para comer.
Si dios eres, Amor, ¿cuál es tu cielo?
Estão vinte graus negativos em Varsóvia, mais coisa, menos coisa. Ajeito o cachecol e saio. Entro, todo, na neve. O frio entra, todo, em mim. Lembro as seguintes palavras:
Torna, prendimi spesso, amato spasimo,
Labiologia VI – Dias Felizes. Ler tudo. Lê-lo todo.
Observação IV – "Chcę być i będę prezydentem wszystkich Portugalczyków". Citação do novíssimo eleito para a Presidência da República Portuguesa (não o menciono porque um blogue quer-se decente), reproduzida num jornal polaco (Gazeta). "Quero ser e serei presidente de todos os portugueses", reza o veredicto, mais coisa, menos coisa. Eu, que sou elementar nas lides da língua polaca, insisto num ponto simples: não se percebe, seja em que língua for. Ponham-nos a votos com uma série de candidatos completamente incapazes e ignorantes (isto é: sem projectos, sem ideias sustentadas ou sustentáveis, sem um profundo conhecimento da situação nacional, sem o entendimento claro dos seus deveres). Escolha-se um, por decisão democrática. Ele diz-nos, então, que quer ser e é presidente de todos nós. Nós achamos por bem e congratulamo-nos. A escolha foi bem feita. Eu não percebo a frase.

In the green morning
Epístola II

Adenda VII (às Epístolas) – Esta é uma série de cartas em resposta a Alexis, depois da leitura do romance de Marguerite Yourcenar (Alexis, de 1929), tendo Mónica por remetente. As seguintes palavras dão azo, de algum modo, a este exercício epistolar:
Epístola I
Labiologia III – Terceira labiologia, segunda razão para ler estoutro blogue, que se enche de coisas bonitas, como esta: "Onde mágoas levam alma, / vão também corpo levar". A ler aqui. Em jeito de piscar de olhos, um excerto:
Teso na sela, com as rédeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroísmo; ambicionava uma espada, uma lei, um deus por quem combater... (Eça de Queirós, A Relíquia)
Vocabulário X – Coldre: cada um dos dois estojos pendentes do cinturão ou do arção da sela, para trazer pistolas ou outras armas; rameira; mulher pública.
Labiologia II – Expirar nuvens.
Marinha, en tanto folegares
Vocabulário IX – Mesentério: dobra do peritoneu (membrana serosa que reveste interiormente as paredes do abdómen e recobre os órgãos nele contidos) que envolve e mantém em posição os intestinos.
Here's my view of these many centuries: One worse than the other, if you ask me. A break in the clouds here and there, an afternoon nap in the shade in the arms of the one and only, maybe a kiss or two, and that's about it. Sooner or later, the meal gets eaten, the last drop of tomato sauce runs down your chin and you're left with just some chicken bones on your plate. The rest of the time its plagues, wars, famines, persecutions, exile and hundreds of other calamities and miseries.
Labiologia I – Excelentíssimo, este pedaço de romance tradicional no Abrigo de Pastora, com doçuras como esta: "mandai-me a mim degolar".
Reverencialmente, acrescentando à série das frases que impõem respeito:
A propósito desta entrada na Seta Despedida, sobre a pintura de Hans Holbein, vale a pena ler o seguinte:
Eurydice appeared brindled in blood
Memorando XVI – Trago o corpo de minha mulher embrulhado num lençol. É estranho como pesa. Dir-se-ia que a terra o exige com violência. (Vergílio Ferreira)
When you are old and gray and full of sleep
Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: "Verei dali a janela do meu quarto." Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro, talvez, ou Janeiro. Tiro a neve com uma pá, traço o rectângulo e cavo. Dois cães assomam à porta do quintal, chupados de ódio e de fome. Ainda há cães pela aldeia? Babam-se e uivam sinistramente. Tomo uma pedra, disparo-a contra um, desaparecem ambos a ganir. E de novo o silêncio cresce a toda a volta, desde a montanha que fico a olhar até me doerem os olhos. Olho-a sempre, interrogo-a. (Vergílio Ferreira – Alegria Breve)
Seraghina, que dança por dinheiro num lugar inverosímil (Otto e Mezzo), terá sido, porventura, a mais extravagante das abjeccionistas.
Menelau, descrito na Ilíada como um "amolecido lanceiro", terá sido, porventura, o primeiro dos abjeccionistas.
Adenda VI (às duas últimas entradas) – Elementos para a caracterização do que quer que seja com base no último parágrafo de algumas obras fundamentais.
Elle se leva, lui rendit sa main en signe d'adieu. Mais il lui prit le visage entre les paumes et l'embrassa. Kyo l'avait embrassée ainsi, le dernier jour, exactement ainsi, et jamais depuis des mains n'avaient pris sa tête.
Foi assim, ó Gláucon, que a história se salvou e não pereceu. E poderá salvar-nos, se lhe dermos crédito, e fazer-nos passar a salvo o rio do Letes e não poluir a alma. Se acreditarem em mim, crendo que a alma é imortal e capaz de suportar todos os males e todos os bens, seguiremos sempre o caminho para o alto, e praticaremos por todas as formas a justiça com sabedoria, a fim de sermos caros a nós mesmos e aos deuses, enquanto permanecermos aqui; e, depois de termos ganho os prémios da justiça, como os vencedores dos jogos que andam em volta a recolher as prendas da multidão, tanto aqui como na viagem de mil anos que descrevemos, havemos de ser felizes. (Platão, República)
Sancho Pança entre dans le cinéma d'une ville de province. Il cherche Don Quichotte. Il le trouve assis à l'écart qui fixe l'écran. La salle est presque plein, le balcon, qui ressemble à une énorme loge, est tout entier occupé par des enfants turbulents. Sancho essaie plusieurs fois de rejoindre Don Quichotte. En vain. Il s'assoit à contrecoeur dans la salle, près d'une petite fille (Dulcinée?) qui lui offre une sucette. Le film a déjà commencé: c'est un film en costumes; sur l'écran on voit courir des cavaliers en armes. Soudain apparaît une femme. Elle est menacée. Don Quichotte se dresse d'un coup, dégaine son épée, se jette contre l'écran et commence à lacérer la toile. (Giorgio Agamben, Profanations)
Les Saints de Dieu sont cachés avec lui dans le voile de l'intimité. Comme les jeunes filles gardées dans la maison, personne ne les voit, ni en ce monde, ni dans l'au-delà, sinon les quelques proches pour qui la visite est licite. Quant aux autres, ils ne les voient que pris dans leur voile. En verité, ils ne voient que le voile. (Abdelwahab Meddeb, Les Dits de Bistamî)
Relato IV – Escolhi ir de camioneta, transporte duvidoso no Uruguai, disse-me um taxista, também ele duvidoso, muito mais que qualquer camioneta destruída que me pudessem apresentar. De qualquer modo, já usava há bastante tempo as da província polaca, que são tão velhas quanto o mais decadente e cinzento dia do regime soviético. A central de camionagem fazia-me lembrar, aliás, os edifícios das corridas de cavalos de Varsóvia, que são, por si só, um espectáculo de homenagem a esse taciturno e alquebrado dia. Não havia lugares vagos na camioneta. A música era ensurdecedora, mas podia muito bem ser o piano excêntrico, belo e sério de Satie.
Hay cosas tan delicadas que se hace bien en sepultarlas bajo una grosería para que se vuelvan irreconocibles; hay actos hechos por amor y por una generosidad desmedida tras los cuales lo mejor que puede hacerse es coger un bastón y apalear al testigo: de ese modo se le nublará la memoria. (Nietzsche, Más allá del bien y del mal)
Observação III – Passar uma tarde de domingo a assistir às corridas de cavalos no recinto de Varsóvia não é uma experiência desagradável. Muito pelo contrário, parece estar cheia de coisas bonitas que não se esquecem facilmente. Enumerarei algumas. Um edifício só para os apostadores a sério: os que têm imensos acessórios dourados, dentes de prata, carteiras de couro, que comem farinheira, conduzem um carro alemão comprado na Ucrânia e que só bebem cerveja polaca – piwo, que talvez partilhe a raiz etimológica de piela. Instalações anteriores à guerra, lembrando que a cidade foi quase totalmente arrasada – fatalidade a que aqueles edifícios não parecem ter resistido. Uma audiência espantosa, deixando no ar a dúvida sobre o objecto da aposta: ou a vitória dos cavalos ou, quem sabe, o equilíbrio dos próprios apostadores. Jóqueis com nomes como Popov ou Carvalho [sic]. Um cavalo – Predator, de sua graça – cuja mãe [sic] foi baptizada com o nome de Penetracja [sic]; outros nomes seguem aqui: Bolero, Demonstrator (cavalo alemão), Spanio, Super Power, Bomba, Barbie (e inúmeras variantes), etc., até porque a indecência tem limites. De lembrar as seguintes palavras:
Concorda il tuo voler con quel di Dio,
Relato III – Decidi que me levantaria muito cedo, no dia seguinte. Se chegasse a encontrar o tal cavalo cristalino, puríssimo, teria de ser quando a aurora se instalasse, calma, extinguindo a noite. Já o imaginava, na manhã nívea, troteando no planalto extensíssimo. (Pus-me a pensar, recordo-o bem, no Vístula. Encontraria aqui, quiçá, as margens do rio varsoviano?) No entanto, o hospedeiro – um homem pouco sério, dado a falar de política, disse-me a cozinheira num linguarejar difícil de acompanhar – não bateu à porta por volta das cinco da manhã, como havíamos combinado. Um pouco decepcionado por ter perdido um período propício, desci para tomar o pequeno-almoço. De facto, o velho hospedeiro insistia na política, comparando a situação actual do Uruguai à da época do desembarque dos trinta e três, acontecimento que dera nome à região administrativa e à cidade, ainda que não fizesse sentido nenhum. Ocorreu-me que a política teria deixado de ser um assunto sério quando, por razões que aqui não se tratarão, se deixou de usar cartola e se perdeu o bendito hábito de açaimar as bestas. Foi então que decidi partir imediatamente para o campo, tendo deixado o pão por ensopar na malga de leite. Comprei mantimentos e, com o caminho previamente – e primitivamente – cartografado, pus-me a caminho. Deixei Trinta e Três a meio da manhã, já a cidade bulia.
E este Busballrao herdou o reyno per morte de seu pay Narsanayque, e reynou seis anos nos quoaees sempre teve a guerra, porque tanto que o pay foy morto, llogo toda a terra foy alevamtada pellos capitãees, hos quoaees em pouco tempo forão por este rey destroydos, e as terras tomadas, e tornadas debaixo de seu senhorio; estes seis anos gastou elrey, em tornar a terra ao que era d antes, outo contos de pardaos d ouro; este rey morreo de sua doemça na cidade de Bisnaga, e antes que morrese, mamdou chamar Salvatimya, seu regedor, e mamdou trazer hũu filho seu que tinha d outo anos, e dise a Sallvatina que, tanto que elle morresse, alevamtase a seu filho por rey, posto que não fosse em ydade pera ysso, posto que a Crisnarao seu yrmão pertemcya ho reyno, ou que a elle lhe tirase os olhos, e lhos trouxese a mostrar per despois de sua morte não aver no reyno allgũas diferemças, dizemdo Salvatina que asy o farya; se foy, e mamdou chamar a Crisnarao seu yrmão, e o levou a hũa estrebaria, e lhe dise como seu yrmão lhe mamdava tirar os olhos, e que fizesse a seu filho rey. Ouvido ysto, Crisnarao disse que não queria ser rey, nem nada de seu reyno, posto que de direito lhe viesse, que elle se querya hir por esse mumdo como Jogue, e que lhe não tirasse os olhos, pois que não tinha feito por que a seu yrmão; vemdo ysto Sallvatina, e vemdo o homem de vinte e tantos anos, tanto pera ser rey, como adiante vereis, mais que ho filho de Busballrrao, que hera de oyto anos, mamdou trazer hũa cabra, e lhe tirou os olhos, e os levou a mostrar a elrey, porque jaa esta hera a derradeira ora de ssua vyda, e lhos apresentou, e tanto que elrey foy morto foy allevantado por rey seu yrmão Crisnarao, a quem elle mamdara tirar os olhos. (Crónica dos Reis de Bisnaga)
Vocabulário VIII – Albarda: espécie de sela feita de pano grosseiro ou lona, cheia usualmente de palha, para bestas de carga; opressão; peso; vexame.
poderemos, um dia, amar estas vitrinas
E tanto que foy noute, e as oras chegadas, elrey teve cuydado de se sahir, e milhor teve elle, que avia pedaço que o estava esperamdo, e asy damdo aviso aos adargueyros, o quoal tanto que foy na horta, passamdo por emtre dous, que erão as goardas, remeterão a elle, e o matarão, e foy llogo soterrado ao pee de hũu arvore na mesma horta, e ysto acabado sem saberem quem matarão, ho tredor lho agradeceo, e se foy pera sua pousada a fazer prestes pera se sahir fora da cidade, e tambem por não dar causa a fallarem nelle. E outro dia pella manhaa foy elrey achado menos, e buscado por toda a cidade, o quoal se não achou nenhũa nova d elle, cuydamdo todos ser fugido pera allgũa parte, omde podese fazer guerra a Narsenayque, ao quoall loguo foy ter a nova, mostramdo por ysso muito sentimento, fazemdo se prestes todavya de cavallos e alyfantes pera se no reyno ouvesse allgũu rebollyço pella morte d elrey, que aymda não sabia certo como era, mays que ser des aparecido, e depois d isto veyo quem ho matou, e deu lhe conta da maneyra que tevera, e quoão secretamente fora morto, que os mesmos que ho matarão, ho não sabião, ao quoal Narsenayque fez muyta merce; e por não aver nova nenhũa d elrey, e por elle ter tudo de sua mão, foy alevamtado por rey de toda a terra de Narsymga; e d este rey ficarão por sua morte cinco filhos, hũu se chamava Busbalrao, e outro Crismarao, Tetarao, e outro Ramygupa, e outro Ouamysyuaya. (Crónica dos Reis de Bisnaga)
Relato II – Chegado a Montevideu, procurei alojamento para uma noite. No dia seguinte, arranjei transporte para o meu destino, o Departamento de Trinta e Três. Estava decidido a encontrar o melhor cavalo do mundo, seguindo as instruções de D. Duarte, de Lie Tse e de Xenofonte (e aqui), não deixando de lado, no entanto, os conselhos sempre sábios dos locais. A razão para escolher o Uruguai não podia ser mais simples: estava seguro de que, a encontrar a melhor sela conhecida, teria de ser no Planalto Cristalino; um nome destes só pode agourar boas coisas. Era essa, afinal, a qualidade que procurava, depois do cruzamento de informações: um animal cristalino; límpido e puro como um cristal. A região de Trinta e Três, que ocupa uma boa parte desse planalto, pareceu-me a mais aprazível para me acomodar.
Vocabulário VII – Cavaleiro andante: o cavaleiro que, para ganhar fama ou para alcançar a mão da sua dama, ia correr mundo em busca de aventuras e justas, lutando em torneios.
Relato I – Atravessava o Rio da Prata, entre uma pequena cidade argentina e Montevideu, quando vi pela primeira vez um cavalo uruguaio. Há muito que imaginava as histórias que se contariam por aquelas bandas, onde seguramente as bestas teriam sido de uso proveitoso, mas não esperava vê-los ainda antes de chegar ao cais da capital, já afastado demais da Argentina para poder vislumbrar o que quer que fosse. O dono do animal era um homem de aspecto curioso, talvez um pouco engraçado, com bons ares e mostrando ser versado nas artes do cuidado equestre: a sela aprumada, as ferraduras impecáveis, a besta robusta. Explicou-me que o levava sempre que ia de barco, não fosse dar-se outro desembarque e faltar alguém para completar o grupo de trinta e três cavaleiros ou mesmo uma besta para montar! Disse-mo com toda a alegria do mundo, assim, exclamativamente. Eu conhecia um pouco da história da independência do país, mas estava longe de imaginar que alguém levasse um cavalo à espera que tal voltasse a cumprir-se. Pensei que sempre que passasse por Aljubarrota deveria levar comigo um saco de farinha, não fosse o Diabo tecê-las.
Ter a planta nua do pé sobre a terra e sentir, à flor da pele, o viço do chão: as folhas findas e orvalhadas, os torrões como dedos, os bichos em alvoroço por causa da catástrofe do pé. E perceber que sempre o corpo se afunda um pouco, que sempre se inclina para o soterramento. O incrível medo de ser sugado, arrastado para dentro da terra, de dar o pé à morte como quem dá a mão num bailarico de domingo à tarde. Aliás, num cemitério o viço do chão é o reboliço subterrâneo: os bichos à procura das carnes que ainda se aguentam coladas aos ossos, à procura da extinção dos corpos.
– So you don't vouch for the art-as-technique-pure-and-simple theories of Stravinsky, for instance?
Dans Virgile, Alecto grimpe sur le toit de l'étable et chante (canit) dans la corne recourbée (cornu recurvo) le signal (signum) qui assemble les pasteurs. Virgile dit que ce son est une «voix infernale» (Tartaream vocem).
That old cemetery behind my garden would be a suitable place. Everything there is beautiful with a beauty of exceeding and startling queerness; each tree and stone has been shaped by some old, old ideal which no longer exists in any living brain; even the shadows are not of this time and sun, but of a world forgotten, that never knew steam or electricity or magnetism or – kerosene oil! Also in the boom of the big bell there is a quaintness of tone which wakens feelings, so strangely far-away from all the nineteenth-century part of me, that the faint blind stirrings of them make me afraid, – deliciously afraid. (Lafcadio Hearn, Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things)
somewhere i have never travelled, gladly beyond
– ¿Cómo estáis, Rocinante, tan delgado?
Vocabulário VI – Galope: a carreira mais rápida de alguns animais quadrúpedes; corrida veloz; espécie de dança a dois tempos.
Observação II – Durante o abate das árvores do quintal que servem de esconderijo aos mais estranhos animais (a que jurei dar caça), encontrei um objecto ainda mais estranho, cuidadosamente encostado à parede de casa. Parecia uma bomba coberta de uma espécie de barro, do tamanho de uma garrafa de um litro. Considerando por uns segundos a história intermitente das terras polacas, resolvi questionar o vizinho, um de meia dúzia de almas num raio de quilómetros. Largo, sem um dedo (noto-o agora), fumando, esclareceu calmamente: "Ah, isso fui eu que deixei ali, para os miúdos não mexerem. Eu já perdi um dedo com uma dessas". E adianta: "Isto aqui é normal, mas não explode se a deixarem quieta". Deixei-a, é certo. Encontrou-a "do meu lado" e eu pensava então como mudar de lado, como mudar de terras; contava as horas para saber quando passaria o próximo autocarro para Varsóvia, mas não era sequer dia de tráfego na pequena estrada. Não faltou, claro, a observação: "Foram os malditos russos que deixaram isto cheio de bombas". Metade do país acha, com certeza, que foram os russos; a outra, que foram os alemães. Mas de uma coisa estou certo: foi o vizinho que a deixou ali, paredes meias com o fogão a lenha da cozinha, aceso todas as noites por causa do frio ou, não o imaginaria antes, por causa da morte. Para meu espanto, nada se disse sobre isso na mercearia da aldeia.
eu vi
Memorando VIII – Toda a infelicidade dos homens tem por única origem não saberem ficar sossegadamente nos seus aposentos. (Pascal)
Observação I – Tempo para dedicação absoluta às manhas campesinas no ambiente manso da agra eslava. E porque os assuntos do campo devem ser tratados com cuidado e grandeza, eis uma lista de afazeres:
Before the ocean and the earth appeared –
Frangullas de pan,
E Teofilo lhes disse: "Eu falei a Dorotea quando a levavam a degolar e disse-lhe em escárnio: 'Molher u te vás?' E ela me disse: 'Vou-me pera o meu amigo e meu esposo Jesu Cristo, que me convida pera mui sanctas vodas e mui solemnes manjares pera o seu paraiso.' E eu lhe disse como a sandia: 'Quando fores em esse paraiso, enria-me das rosas e das maçãs.' E ela me prometeu que o faria. E agora, tanto que foi degolada, veeo a mim üu menino que me parece que nom é mais de idade de quatro annos, e chamou-me a de parte e falou-me tam perfectamente, que a mim parecia seer eu rustico ante el e amostrou-me e deu-me este pano com estas tres rosas e tres maças e disse-me: 'Aquela virgem sancta Dorotea te enria esto, assi como o prometeu, estas doas do horto do seu esposo.'" (Horto do Esposo)
Adenda V (às três últimas entradas) – Elementos para uma iconografia dos sentidos, baseada no seguinte excerto:
A acção e a paixão também admitem a contrariedade e são passíveis dos graus maior e menor. Aquecer é o contrário de arrefecer, ser aquecido de ser arrefecido, alegrar-se de entristecer-se, o que é bem uma prova de admissão da contrariedade. O mesmo quanto ao mais e ao menos: pode aquecer-se mais ou menos, ou ser aquecido mais ou menos. A acção e a paixão são, por isso, susceptíveis de mais e menos. Eis o que temos a dizer destas categorias. (Aristóteles, Organon)
Sedia-m'eu na ermida de San Simión
J'étais au repos. Première condition. D'abord le repos, pas un repos qui n'aurait été qu'une absence de mobilité et qui bientôt serait devenu somnolence et tout eût été perdu, mais un repos d'un degré au-delà, qui est abandon à la perte d'intervention. (Henri Michaux, Face à ce qui se dérobe)
Enquanto isso, agitando os seus corpos em débil movimento,
Vocabulário V – Forca: instrumento para o suplício da estrangulação; patíbulo; cadafalso; forquilha.
A Pisanello
If a man buys his horses well, trains them so that they can stand work, and uses them properly in the training for war, in the exhibition rides and on the battle-fields, what is there then to hinder him from making horses more valuable than they are when he takes them over, and why should he not be the owner of famous horses, and also become famous himself for his horsemanship, provided no divine power prevents? (Xenofonte, On the Art of Horsemanship)
Strike, strike the villain, who has spread confusion amongst the ranks of the Knights, this public robber, this yawning gulf of plunder, this devouring Charybdis, this villain, this villain, this villain! I cannot say the word too often, for he is a villain a thousand times a day. Come, strike, drive, hurl him over and crush him to pieces; hate him as we hate him; stun him with your blows and your shouts. And beware lest he escape you; he knows the way Eucrates took straight to a bran sack for concealment. (Aristófanes, Knights)
When a man has found a horse to his mind, bought him and taken him home, it is well to have the stable so situated with respect to the house that his master can see him very often; and it is a good plan to have the stall so contrived that it will be as difficult to steal the horse's fodderout of the manger as the master's victuals from the larder. He who neglects this seems to me to neglect himself; for it is plain that in danger the master entrusts his life to his horse. (Xenofonte, On the Art of Horsemanship)
Que dias há que na alma me tem posto
Memorando V – Num papel rasgado que serve de marcador de um livro, está a morada do Movimento de Divulgação do Espiritismo Cristão, em Ponta Delgada: fica no Largo do Bom Despacho. Haverá nome mais conveniente? O papel marca uma página com o seguinte poema:
Se nos prados daqui
Come occhi di pecora immolate,
Adenda IV (à última entrada) – Continuação da colecta de elementos para a classificação dos usos e das capacidades das bestas (consultar Adenda II).
Arrasado el jardín, profanados los cálices y las aras, entraron a caballo los hunos en la biblioteca monástica y rompieron los libros incomprensibles y los vituperaron y los quemaron, acaso temerosos de que las letras encubrieran blasfemias contra su dios, que era una cimitarra de hierro. (Jorge Luis Borges, El Aleph)
Memorando IV – O Abjeccionismo é a mais apurada das teorias, não lhe faltando nada nem lhe cabendo qualquer coisa mais. O seu início tem a medida da sua perfeição: o texto que explicava o que era perdeu-se para nunca mais ser achado, sendo a resignação do autor esclarecedora quanto à relevância deste acaso. O que tem que ser tem muita força. Restam apenas pequenas indicações, pequenas lembranças do que foi dito, aqui ou ali, pelo autor. Normal seria que, morto este, e nestas circunstâncias, morresse a teoria. Pelo contrário, foi preciso que o autor morresse para que, de uma vez por todas, o Abjeccionismo se instalasse. De outro modo, poderia o autor desacertar e dizer alguma coisa nova que, no caso de tão primorosa teoria, não ajudaria senão a desmembrá-la. A carne é fraca, di-lo toda a gente, pelo que a morte do autor trouxe substância à teoria. Há quem afirme, não sem que a voz lhe trema, que o Abjeccionismo é o Surrealismo português. Mas esta é uma afirmação decididamente injusta: o Surrealismo tem obra e o Abjeccionismo não pode, por natureza, tê-la. Por natureza? Melhor: por não ter natureza. É porque nunca foi que a mais apurada das teorias não pode ter obra. Obra feita tem Deus, têm os artistas, têm os mestres-de-obras e os pais de filhos. O Abjeccionismo – tal como os deuses, as epidemias ou as térmitas – tem obra desfeita.
Saibam os Nove Firmamentos que o Deus
Adenda III (à última entrada) – Elementos para a caracterização das propriedades intelectuais que permitam a selecção do cavalo perfeito.
Duque Mu do Sin: "Sois idoso, um dos vossos poderia arranjar-me cavalos?"
Vocabulário IV – Eguariço: relativo a éguas; muar que procede de égua e burro; aquele que trata de éguas ou cavalos.
Enfant trouvé dans les forêts de Lithuanie
E se non puoi la vita che desideri
Virgínia
Epístola para Dédalo
O mar estava sem espuma, liso, extremamente brilhante, resplandecente. Cada onda era como uma grande telha de ouro que se erguia, que avançava. (Pascal Quignard, As Sombras Errantes)
Adenda II (às duas últimas entradas) – Elementos para a classificação dos usos e das capacidades das bestas.
C'est Dieu qui a créé pour vous les bestiaux; les uns vous servent de montures, et vous mangez la chair des autres.
Or il n'y a que fort peu de commerce d'idées parmi les bêtes, même parmi celles qui forment une espèce de société. Chacune est donc bornée à sa seule expérience. Dans l'impuissance de se communiquer leurs découvertes et leurs méprises particullières, elles recommencent à chaque génération les mêmes études, elles s'arrêtent après avoir refait les mêmes progrès, le corps de leur société est dans la même ignorance que chaque individu, et leurs opérations offrent toujours les mêmes résultats. (Étienne Bonnot de Condillac, Traité des Animaux).
According to thy word.
Vocabulário II – Virote: seta curta, forte e grossa; haste quadrada que era a principal peça da balestilha; travessa de ferro, nos copos das antigas espadas.
Je te salue, pleine de grâce.
Ho visto la luna più chiara di sempre
Glória de ter o espaldar recortado
Adenda I (às duas últimas entradas) – Elementos para a caracterização do Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela, de D. Duarte, como um Tratado de Declamação Poética.
O cavalo que transporta o poeta é, segundo uma antiga tradição exegética do Apocalipse de S. João, o elemento sonoro e vocal da linguagem. Comentando o Apocalipse 19:11, onde se descreve o logos como um cavaleiro "fiel e veraz" que monta um cavalo branco, Orígenes explica que o cavalo é a voz, a palavra como enunciado sonoro, que "corre com mais energia e velocidade que qualquer ginete" e que só o logos torna inteligível e clara. É sobre um tal cavalo que, adormecido – durmen sus un chivau –, nas origens da poesia novilatina, Guilherme de Aquitânia declara ter composto o seu vers; e há um certo indício do tenaz simbolismo desta imagem, quando, no princípio do século, na obra de Pascoli (e, mais tarde, em Penna e em Delfini), o cavalo toma a forma mais descontraída de uma bicicleta. (Giorgio Agamben, Ideia da Prosa)
Io vado verso il fiume su un cavallo
Memorando I – O Vístula não tem margens. Não sei se as terá fora dos muros varsovianos, mas aqui seguramente não as tem. A cidade tem rio, é certo, há pontes e tudo, há mesmo o lado de cá do rio (a Cidade Velha, por exemplo) e o lado de lá (a cidade envelhecida). Mas isso não lhe levanta beiras.
Cobre-se o céu de grossas negras nuvens,
L'impénétrabilité est une propriété de tous les corps; plusieurs ne sauroient occuper le même lieu: chacun exclut tout les autres du lieu qu'il occupe. (Étienne Bonnot de Condillac, Traité des Sensations)
Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu leito, um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível. (Mário Cesariny, Pena Capital)
Num ermo, morava um virtuoso ermitão ao qual se chegou um salteador de caminhos, dizendo-lhe:
Menina e moça me levaram de casa de minha mãi para muito longe. Que causa fosse então daquela minha levada, era ainda piquena, não a soube. Agora não lhe ponho outra, senão que parece que já então havia de ser o que despois foi. Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, cuitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha. (Bernardim Ribeiro, Menina e Moça)